{Portada}

Editados por HARLEQUIN IBÉRICA, S.A.

© 2011 Myrna Topol. Todos os direitos reservados.

O AMOR NÃO TEM REGRAS, N.º 1311 - Janeiro 2012

Título original: Riches to Rags Bride

Publicado originalmente por Mills & Boon®, Ltd., Londres.

Publicado em portugués em 2012

Todos os direitos, incluindo os de reprodução total ou parcial, são reservados. Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Enterprises II BV.

Todas as personagens deste livro são fictícias. Qualquer semelhança com alguma pessoa, viva ou morta, é pura coincidência.

® Harlequin, logotipo Harlequin e Bianca são marcas registadas por Harlequin Books S.A.

® e ™ São marcas registadas pela Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença. As marcas que têm ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

I.S.B.N.: 978-84-9010-631-0

Editor responsável: Luis Pugni

ePub: Publidisa

Capítulo 1

Genevieve Patchett estava a olhar para a porta de mogno do escritório onde ia ter a primeira entrevista de trabalho da sua vida. Apesar de ter vinte e seis anos, tinha um curriculum vazio, muitas explicações para dar e imensas faturas para pagar. Lucas McDowell, o homem que tinha o seu futuro e a sua sobrevivência nas mãos, tinha fama de ser um homem de negócios frio e exigente que só contratava os melhores. E ela não era a melhor.

Estendeu a mão para agarrar a maçaneta da porta, estava a tremer, por isso agarrou-a com força e concentrou-se em mostrar-se competente. Tinha de conseguir aquele emprego. A sua amiga Teresa conseguira-lhe aquela entrevista.

Genevieve abriu um pouco a porta e, depois, ficou parada. Do outro lado ouvia-se uma discussão. Uma voz feminina falava mais alto.

De repente, a porta abriu-se e deu por si à frente de uma mulher morena, muito alta e muito bonita.

Gen afastou-se e a mulher riu-se com ironia.

– Não te vás embora, querida. É todo teu. Mas tem cuidado e não te apaixones por ele. Não tem coração – disse a mulher. – Lucas, aqui está a tua próxima vítima.

Com isto, a mulher foi-se embora pelo corredor e Genevieve pôde ver, finalmente, o homem moreno de ombros largos que estava sentado à frente da secretária. Por uma fração de segundo, perguntou-se se sair dali a correr seria uma boa opção. Lucas McDowell usava um fato impecável. Tinha feições de lutador da rua, uns olhos cinzentos capazes de ver todas as suas inseguranças e… o sobrolho franzido.

– Entre, feche a porta e sente-se – disse, apontando para a poltrona azul que estava à frente da sua mesa.

Ela obedeceu rapidamente e não disse nada. Estava habituada àquelas alterações de tom. Os seus pais eram pessoas muito temperamentais.

O homem olhou para ela atentamente, desde o rosto até às mãos que tinha nos braços da poltrona. Com esforço, susteve a respiração e tentou relaxar.

– Imagino que é Genevieve Patchett – disse. – Muito bem, comecemos.

Mas estava claro que não tinha nenhum interesse em começar nada com ela. Continuava a franzir o sobrolho.

Genevieve quis chorar. Pela enésima vez desde que o seu mundo desabara, sentiu-se perto de um precipício. Aquela sensação de medo estava a transformar-se numa sensação habitual. Perdera a sua reputação e, em breve, acabaria o pouco dinheiro que restava da sua fortuna depois de o seu ex-noivo, um assessor financeiro, ter esvaziado todas as suas contas. Então, ver-se-ia obrigada a dormir na rua. Portanto, fugir da única entrevista de trabalho que conseguira não era uma opção.

«Deixa-te disso», disse-se.

Aquele homem podia ter um olhar de aço, ser um gigante da indústria e ter uma empresa de equipamento recreativo, mas ela crescera numa família que pertencia à elite social do mundo. O facto de se ver obrigada a mendigar para comer não mudava isso. Os seus pais sempre lhe tinham dito que, tendo segurança, ou pelo menos fingindo tê-la, podia conseguir o que quisesse.

Endireitou-se e obrigou-se a esquecer a cena desagradável que vira. Olhou para os seus olhos cinzentos.

– Senhor McDowell. Eu gostaria que…

– Não – disse ele, o seu tom era cortante como uma faca. – Menina Patchett, ambos sabemos que o que gostaria não vai afetar o seu destino.

– O meu destino?

A maneira como o dissera, como se tivesse algum tipo de controlo sobre ela, fez com que Genevieve se remexesse na cadeira. Sentia-se muito sozinha. Mesmo assim, sabia que era uma sorte que ele lhe tivesse concedido aquela entrevista.

– Muito bem – concedeu ela, esperando que continuasse.

Desejava escapar do seu olhar insolente.

– Deixemos uma coisa bem clara. A única razão por que está aqui é porque um dos meus empregados foi para a Austrália e porque foi recomendada por Teresa March – disse, embora Genevieve já soubesse.

Fora uma sorte que Teresa estivesse na cidade a visitar uns familiares. Contara-lhe que Lucas, um homem com que Teresa trabalhara, estava em Chicago à procura de um colaborador, exatamente quando Genevieve estava a começar a contar os seus últimos dólares. Sem hesitar, Teresa insistira em arranjar o trabalho para Gen.

«Devia dizer-lhe alguma coisa? Devia dizer-lhe que estou agradecida a Teresa? Ou perceberá que estou desesperada?», pensou.

Não sabia. Apesar de ter vinte e seis anos, aquilo era novo para ela.

«Deixa-te levar pelo teu instinto», pensou.

Mas fora o seu instinto que a fizera confiar em Barry, que aproveitara para lhe roubar todo o dinheiro e traí-la, para além de a magoar. Mesmo assim, Teresa podia ter-lhe salvado a vida ao conseguir-lhe aquela entrevista. Tinha de a elogiar.

– Teresa é uma santa – disse e corou ao ver que ele arqueava uma sobrancelha.

Teresa tinha fama de ser uma rapariga que gostava de se divertir, embora nunca deixasse que a diversão interferisse com o trabalho.

– Bom, não é exatamente uma santa, mas é uma pessoa muito agradável depois de a conhecermos bem – acrescentou Genevieve, corrigindo-se. – Eu… Conheco-a e…

A expressão de Lucas não revelava nada. Ficou calado enquanto ela ficava cada vez mais nervosa.

Genevieve quis levar a mão à boca. Porque estava a gaguejar? Lucas McDowell não a considerava a candidata ideal. Ia pensar que era tola e mandá-la-ia embora dali sem lhe dar o trabalho.

– Estou-lhe muito agradecida por esta entrevista – concluiu e perguntou-se rapidamente se teria parecido muito ansiosa.

Lançou-lhe um olhar rápido e intenso, como se conseguisse ler os seus pensamentos, e anotou alguma coisa num caderno. O coração de Genevieve começou a acelerar. Imaginava-se a gastar o seu último dólar sem saber que direção seguir ou para onde ir.

– Lamento muito. Eu… Senhor McDowell, podemos começar do zero? – perguntou ela.

Ele pousou o caderno e deu a volta à mesa até parar à frente dela com os braços cruzados. Estava muito perto e Genevieve virou-se, obrigada a olhar para ele nos olhos.

– Começar do zero?

– Sim, isso. Sou Genevieve Patchett, penso que tem um emprego para mim. Tenho referências – disse e tirou a lista que Teresa a ajudara a fazer.

O facto de aquelas referências serem de pessoas que ainda não tinham ouvido os rumores malvados que Barry espalhara sobre ela, fazia-a sentir-se culpada. Queria pedir a Lucas para não acreditar nos rumores que ouvira sobre ela, mas Teresa aconselhara-a a não o fazer.

Lucas pegou no papel e os seus dedos ficaram a escassos centímetros dos dela. O seu coração quase parou ao ver que o aceitava e o deixava na mesa sem o ler.

– Não as quer? – perguntou, num tom ofegante.

– Não preciso dele. Já verifiquei o seu passado. Sei tudo o que preciso de saber. Se não o tivesse feito antes, não estaria aqui agora.

– Entendo.

Mas a sua cabeça dava voltas. O que sabia? O que descobrira?

Pela primeira vez, Lucas sorriu. Aquele sorriso transformou o seu rosto em algo… masculino e viril, para além de perigoso. Genevieve apercebeu-se de que estava a acomodar-se muito na cadeira. Endireitou-se e levantou a cabeça.

«Tenta mostrar-te segura e competente!», ordenou-se.

– Não entende, mas não é culpa sua. Este trabalho não se parece em nada com o que fez anteriormente.

Abriu a boca para lhe dizer que nunca tivera um trabalho, mas fechou-a. Dissera-lhe que conhecia o seu passado. Se era verdade, então, saberia. Mas talvez quisesse pôr a sua sinceridade à prova. Abriu a boca novamente, mas voltou a fechá-la. Essa sinceridade podia deitar tudo a perder. E morreria de fome e…

– Eu…

Fechou os olhos, disposta a fazer o correto ou, pelo menos, a fazer com que as palavras que saíssem da sua boca fossem as corretas. Ainda tinha de escolher entre dizer a verdade ou desmaiar de fome. Uma mulher não podia alimentar-se de verdades.

– Nunca teve um trabalho sério, pois não? – perguntou-lhe, pondo fim ao seu dilema.

– E isso importa? – perguntou, engolindo em seco.

«Por favor, diga que não.»

– Não sei. Depende.

Genevieve respirou fundo, esperando que não se apercebesse de como estava nervosa.

– Depende de quê?

– Para começar, não tem ideia do que tem de fazer aqui, pois não?

– A verdade é que não.

Esperava que não fosse uma coisa que estivesse para além das suas habilidades.

– O que quer que faça?

– Se lhe der o emprego, o que quero… Bom, comecemos por algumas perguntas sobre si.

Era um homem desesperante. Não respondera à sua pergunta e… Oh, não, chegava a parte mais difícil.

«Não me pergunte pelas mentiras que Barry contou sobre mim porque já houve muita gente que me virou as costas por causa disso.»

– Quais são as suas habilidades?

Aquele era o tipo de pergunta que podia fazer com que saísse pela porta antes de começar a entrevista.

«Em circunstâncias menos enervantes, consigo manter uma conversa, sei como vestir-me, como escolher um bom vinho, como fiscalizar os empregados…»

Por alguma razão, duvidava que qualquer uma daquelas coisas fosse de ajuda naquele momento.

– Eu… Não sei que tipo de habilidades procura – disse, esperando que lhe desse uma pista do que queria.

– Preciso de alguém que saiba conseguir o que quer.

– Eu… – disse e fez uma pausa.

Engoliu em seco, respirou fundo e recomeçou. Se não lhe desse uma boa resposta, se não parecesse convincente, ia perder aquela oportunidade. Genevieve esforçou-se para continuar a respirar com normalidade.

– Organizei eventos e fiscalizei as listas de convidados – disse, num tom de voz surpreendentemente firme, tendo em conta os batimentos frenéticos do seu coração.

A verdade era que os eventos consistiam na festa que os seus pais davam todos os anos. O que tinha de fazer nunca fora difícil. Os seus pais diziam sempre exatamente o que queriam e era sempre o mesmo. Em relação à lista de convidados, as pessoas sempre tinham querido ver a arte dos seus pais, portanto a sua principal missão fora reduzir a lista de convidados. O seu papel sempre fora discreto, tanto para organizar a festa como para controlar o trabalho dos seus pais.

Lucas cruzou os braços, o que acentuou a largura dos seus ombros e a fez sentir-se mais pequena do que era. Um sorriso apareceu nos seus lábios, como se soubesse o que estava a pensar. Esperava que não soubesse o que estava a pensar.

– Os seus pais, Ann e Theo Patchett revolucionaram o mundo da arte com as suas figuras de cristal artesanal. Sei que viajou com eles para todo o lado e que os acompanhou sempre. Imagino que conseguiu tudo o que queria.

Mas imaginara mal, pensou Genevieve. Os seus pais tinham uma personalidade muito forte e tivera de fazer tudo como eles tinham querido, à sombra dos seus egos. Não se destacava em nada e, ultimamente, nada lhe correra bem. Depois da morte dos seus pais, comprometera-se com um estelionatário que conhecera graças a eles e que depressa a roubara antes de a abandonar. Devia contar a verdade a Lucas McDowell?

«Não, sabes cumprir ordens. Portanto, cumpre as ordens e tenta fazer o que te diz. Isso, se te contratar.»

– Os seus pais decoraram algumas das casas mais luxuosas do mundo – estava a dizer ele. – Teresa telefonou-me quando ia começar a entrevistar candidatos. Preciso de alguém que saiba decorar e que seja organizado. Isso é o que mais me interessa.

Genevieve perguntou-se o que seria exatamente que Teresa lhe contara e se conheceria bem Teresa. Era uma mulher inteligente e exagerada. Se Lucas pensasse que Genevieve era um génio criativo e descobrisse a verdade… Não podia mentir e muito menos depois do que acontecera com Barry. Abriu a boca para dizer que não se parecia nada com os seus pais, mas fechou-a.

– Não tenho a experiência dos meus pais – disse, com franqueza, – mas passei a vida em sítios lindos, admirando-os durante muitas horas e, em alguns casos, a catalogar os pormenores quando os meus pais precisavam de ajuda.

Tinha a certeza de que não era aquilo que procurava, mas Lucas olhou para ela atentamente.

Genevieve tentou não tremer nem reparar em como era bonito. Várias vezes na sua vida, a sua confiança fora traída, mas nunca da maneira que Barry o fizera. O amor cego por um homem fora a sua perdição. Nunca mais aconteceria. Teresa já a avisara da reputação de Lucas.

«Não importa que seja irresistível», pensou Gen.

Não precisava de um homem. A única coisa que queria naquele momento era um emprego. O dinheiro seria a sua salvação. Precisava de pôr a sua vida em ordem e de não confiar em ninguém. Era uma regra muito simples. Mas antes tinha de conseguir o emprego. Levantou o olhar e viu que Lucas estava a estudá-la atentamente.

– Quem escolheu a sua roupa? – perguntou, de repente.

– Desculpe? – perguntou, surpreendida, mas recuperou rapidamente a sua expressão de tranquilidade.

Era uma pergunta estranha, mas e então? Possivelmente, era um excêntrico, mas só tinha de importar que estava a oferecer-lhe um emprego.

– Fui eu que a escolhi.

Fora feita à medida. Naquela época, tinha muito dinheiro.

– Sim…

Genevieve tentou evitar responder àquilo, mas não pôde.

– Tem alguma coisa de mal?

Ele olhou para a sua saia cor de bronze e para a sua blusa dourada, com botões cremes assimétricos que ela própria fizera.

– É interessante. O efeito é insípido, até antiquado. Mas os botões são… estranhos. Contrastam com o resto da roupa, mas ficam bem. Vê-se que sabe a respeito de cores e misturas para fazer com que o resultado funcione. E as cores destacam o seu cabelo ruivo. Embora a saia seja muito curta.

De maneira automática, Genevieve olhou para as pernas. A saia deixava os seus joelhos a descoberto.

Mordeu o lábio. Se a contratasse, ia ser muito difícil trabalhar com ele.

– Costumo usar saias deste comprimento. Pressupõe algum problema para o seu código de vestuário?

Lucas surpreendeu-se.

– Não tenho um código. Só queria verificar se defendia a sua posição.

– Eu…

Queria dizer-lhe que estava a ser injusto. Estava a ser entrevistada para um emprego e temia enfrentar o seu possível chefe. Mas dizer a alguém que estava a ser injusto não era o seu estilo. Gostava de agradar. E naquele momento, estava assustada, nervosa, cansada e faminta.

– Eu gostaria que não brincasse comigo – disse ela, surpreendendo-se.

Possivelmente, estava mais cansada do que pensava, visto que estava a comportar-se de uma maneira estúpida. Que homem contrataria alguém que o repreendia? Abriu a boca para se desculpar, mas foi muito tarde. Lucas já estava a falar.

– Tem razão. O meu comentário foi injusto, dadas as circunstâncias. Portanto, façamos uma coisa. Durante o resto da entrevista, tente conter os nervos e comporte-se como se já estivesse a trabalhar para mim. Está bem?

– E… – disse ela e engoliu em seco. – O que acontecerá se não gostar da forma como me comporto?

– Não a contratarei – respondeu ele, encolhendo os ombros. – Assim que tiver a mínima dúvida, darei a entrevista por acabada. Parece-lhe bem?

– É sempre tão franco, senhor McDowell?

Se a contratasse, teria de estar sempre alerta?

– Sempre.

Ele ficou a olhar para ela nos olhos e Genevieve não conseguiu desviar o olhar. Aquela expressão… Parecia que estava à espera que objetasse. Genevieve sentiu que todo o seu corpo ficava alerta. Aquele homem era muito poderoso e o facto de ter o seu futuro nas mãos era aterrador, mas ainda não dera a entrevista por acabada.

– Penso que consigo fazê-lo bem, senhor McDowell.

– Sou um pouco imbecil. A sua saia é bonita. Responda-me a uma pergunta, tem algum problema com as pessoas sem casa, com as pessoas que não têm dinheiro nem prestígio, com as pessoas com problemas?

«Vou acabar por desmaiar. Está a falar de mim? Até onde chegaram as suas averiguações? Conhece todos os meus problemas?»

– Penso que as pessoas não deviam ser julgadas pela sua situação económica. Eu gostaria que a maioria das pessoas pensasse como eu.

Mas sabia que não era o caso.

Lucas abanou a cabeça.

– Muito bem. Última pergunta, Teresa e a menina não se viram muito ultimamente, mas contou-me que, quando eram jovens, estavam muito unidas. Tenho a certeza de que partilhou segredos consigo. Eu gosto de saber tudo sobre os meus empregados, o seu passado e o seu presente. Pode contar-me algum desses segredos?

– Não! – exclamou Genevieve, num tom de voz muito alto.

Surpreendeu-se com aquela pergunta estranha e indelicada. Por segundos, sentiu raiva. Embora nunca antes tivesse tido uma entrevista de trabalho, tinha a certeza de que aquele tipo de perguntas não era apropriado. Que tipo de homem era aquele?

Olhou para Lucas e, naquele momento, soube que, com a sua resposta, selara o seu destino. Lucas estava a observá-la intensamente, com aqueles olhos hipnotizantes. O que se sentiria sem dinheiro, sem casa e sem comida? Sem dúvida, saberia depressa.

– Não – disse, novamente, desta vez com mais tranquilidade.

Teresa, apesar do seu dinheiro e do seu caráter alegre, tivera uma infância difícil. Confiava em Teresa.

A expressão dos olhos cinzentos de Lucas pareceu suavizar-se.

– Quando pode começar a trabalhar? – perguntou ele.

– Como?

– A trabalhar. Quando pode começar a trabalhar? Foi por isso que veio, não foi?

– Sim, mas pensei que… A sua pergunta… Eu…

– A maioria das pessoas tem segredos. Não tenho interesse em conhecer o passado de Teresa. O que queria saber era se estava disposta a revelar esses segredos para conseguir um trabalho. Tinha de ter a certeza. O emprego é seu.

Genevieve deixou escapar um suspiro profundo. Ainda se sentia desorientada e um pouco alarmada com a atração física que sentia por aquele homem que não seguia as regras. Como ia lidar com alguém cujos métodos não conseguia entender?

– Receio que esteja em desvantagem, senhor McDowell. Teresa disse-me que para este trabalho seria necessário ter conhecimentos em decoração e ser ordenada. Contou-me o pouco que sei, mas como já lhe disse antes, não tenho ideia do que significa ou porque precisa que revele os segredos de uma amiga.

– Eu sei e desculpo-me por esta entrevista estranha. A única coisa que posso dizer é que algumas das tarefas que desempenhará, se aceitar o emprego, serão públicas e outras serão confidenciais. A pessoa que contratar tem de ser capaz de manejar informação pessoal muito confidencial. É difícil medir esse tipo de lealdade. A maioria dos candidatos insistiu que era capaz de manter a discrição, mas, na verdade, há pouca gente capaz de resistir a contar uma história suculenta. Portanto, desculpo-me pelas minhas maneiras. Asseguro-lhe que, de agora em diante, teremos uma relação profissional normal.

Genevieve duvidava. Não havia nada normal em Lucas McDowell.

– Está bem. Podia dizer-me em que consiste o trabalho, por favor?

Ele olhou para ela.

– É muito educada, tendo em conta que a intimidei.

– O senhor tem a faca e o queijo na mão.

– Certo. Está bem, Genevieve. Comprei uns terrenos nos subúrbios. A ideia é construir um refúgio para mulheres com problemas, um lugar onde possam refazer as suas vidas. Vamos fazer com que seja uma coisa de que a cidade esteja orgulhosa. Espero que seja o primeiro de muitos, portanto vamos dar-lhe muita publicidade. Quero que o Lar de Angie seja um lugar perfeito, o epicentro de um movimento que mudará vidas. Isso quer dizer que terá de dar o projeto a conhecer ao público e aos possíveis patrocinadores – disse e respirou fundo antes de continuar. – Algumas mulheres não quererão contar pormenores íntimos. Outras confiarão tanto em si que lhe contarão parte da sua história. É importante que a pessoa que contrate saiba organizar um grande espetáculo e também que mantenha a discrição. Tenho de ter a certeza de que a pessoa que trabalha para mim sabe dar o projeto a conhecer sem trair a confiança dos seus habitantes. É uma linha fina que não devemos atravessar.

Genevieve sabia o que era ver a sua confiança traída.

– Foi por isso que me perguntou por Teresa.

– Se tivesse tentado dizer alguma coisa do seu passado, tê-la-ia parado imediatamente e não a teria contratado.

– Senhor McDowell, asseguro-lhe que entendo. Nem sempre é fácil ou aconselhável confiar em alguém.

– Estou de acordo.

– Então, porquê eu?

Ele encolheu os ombros.

– Eu gosto de escolher os meus empregados. Teresa é de confiança. Ela recomendou-a, embora isso não seja suficiente. Preciso de um bom diretor de projetos e tenho a certeza de que podia ter encontrado outra pessoa. Mas tem uma vantagem, algo a seu favor.

Diretora de projetos? Genevieve desejou fechar os olhos. Teresa teria exagerado as suas habilidades?

– Qual é minha vantagem?