

Editado por Harlequin Ibérica.
Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Núñez de Balboa, 56
28001 Madrid
© 1999 Suzanne Simmons Guntrum
© 2017 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Um homem e uma missâo, n.º 292 - dezembro 2017
Título original: The Willful Wife
Publicado originalmente por Silhouette® Books.
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.
Todos os direitos estão reservados.
I.S.B.N.: 978-84-9170-652-6
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Página de título
Créditos
Sumário
Capítulo Um
Capítulo Dois
Capítulo Três
Capítulo Quatro
Capítulo Cinco
Capítulo Seis
Capítulo Sete
Capítulo Oito
Capítulo Nove
Capítulo Dez
Capítulo Onze
Capítulo Doze
Capítulo Treze
Capítulo Catorze
Capítulo Quinze
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Ela era linda.
Mathis Hazard devolveu a fotografia ao cavalheiro sentado do outro lado da mesa.
– É uma bela mulher – disse.
– Desiree é linda e nós os dois sabemos disso – afirmou George Huxley, acomodando-se melhor na poltrona e estudando o retrato sobre a mesa.
Sem dúvida, o ex-embaixador Huxley via na imagem a preto e branco o mesmo que Mathis vira: uma jovem, cujo tipo era muito parecido com o de Grace Kelly, das pernas longas e bem torneadas aos cabelos louros e longos, emoldurando o rosto de porcelana.
– Para ser franco, a fotografia não faz justiça à beleza desta jovem – continuou o ex-embaixador. – Desiree nasceu e cresceu em Boston. É de uma família aristocrata. Estudou nos colégios certos, frequentou os círculos certos, viajou para os lugares certos, como Paris, Florença, Veneza e Roma, e naturalmente estudou os assuntos certos. História da arte, música clássica, línguas… Vive no sítio certo e até veste as roupas certas. Coisas elegantes e discretas, na sua maioria Armani e Chanel. Sim, ela faz tudo certo.
– Então, qual é o problema?
– De acordo com os pais dela, e foram eles que me procuraram, a minha afilhada fazia tudo certo.
– Ainda não entendi qual é o problema.
– O Hotel Stratford.
Mathis franziu a testa.
– O Stratford aqui em Chicago?
– Exactamente.
Mathis tinha chegado uma semana antes, mas já ouvira falar do famoso estabelecimento.
– É um marco.
– O fundador era bisavô de Desiree. O coronel Jules Stratford, falecido Lanceiro de Sua Majestade em Bengala, serviu o Rei e o país na Índia, há mais de meio século. Aparentemente, o cavalheiro deduziu que era capaz de administrar um hotel, já que tinha comandado um regimento. Aposentou-se como militar, emigrou para este país, comprou um velho hotel, que restaurou, e deu-lhe o nome Stratford.
– O seu próprio nome!
– Sim. De qualquer maneira, o Stratford chegou a ser o mais procurado de todos os pequenos hotéis de Chicago. Depois, o coronel começou a envelhecer e a perder as forças, como acontece com todos nós, e o hotel também perdeu prestígio. O cavalheiro faleceu há mais de vinte anos. A viúva, que era a sua segunda esposa, tentou manter o negócio, mas a tarefa tornou-se mais difícil a cada ano. Enfim, Charlotte morreu há alguns meses e Desiree herdou o Hotel Stratford… – fez uma pausa.
Mathis esperou. Era um homem paciente.
– Desiree é adulta. Pode empregar o tempo e o dinheiro que tem como achar melhor. É um direito dela.
Tinha de concordar com o embaixador.
– No entanto, os pais dela preocupam-se e acreditam que a filha está a colocar os sentimentos à frente da sua natureza habitualmente prática. Disse-lhes que a jovem não é apenas bela, mas inteligente e sensata. Afinal, são poucos os que conseguem obter um diploma com louvor em Harvard. Também assinalei que toda a vida de Desiree tem sido dedicada à preservação do passado. Por isso é tão boa no que faz.
– E o que é que ela faz?
– É conservadora do Museu de Artes de Boston. A sua especialidade é a preservação de documentos.
Mathis olhou mais uma vez para a fotografia a branco e preto. Estranho, a mulher não parecia maçadora.
– De qualquer maneira, a minha afilhada está a gozar uma licença sabática e agora está aqui em Chicago, a tentar encontrar uma forma de devolver ao Stratford a antiga glória. Francamente, nenhum de nós acredita que Desiree tenha consciência da enormidade do problema em que se envolveu. Por isso, contratei a Jonathan e Hazards… – passou-se cerca de um minuto antes que o ex-diplomata voltasse a falar. – O seu primo já me fez um grande favor.
– Jonathan foi o agente especial que o tirou de Beirute – afirmou Mathis com tom neutro.
– Isso mesmo – George, intrigado, fez uma breve pausa, e continuou antes que Mathis fosse vencido pela curiosidade. – Embora tudo tenha acontecido há muito tempo, não pensei que Jonathan tivesse falado a alguém acerca dessa missão, nem mesmo à família.
– Ele não disse nada.
– Então, como é que soube?
O detective encolheu os ombros.
– Antigamente eu sabia sempre tudo.
– Antigamente? – George riu-se para ele. – Quantos anos tem? Trinta e cinco? Trinta e seis?
Mathis assentiu. Tinha completado trinta e seis anos recentemente.
– Vocês Hazard são todos parecidos – apesar dos anos de experiência diplomática, e de todo o tempo passado à frente do Museu Kemet em Chicago, George Huxley não conseguia ainda diferenciar o funcionamento do clã Hazard.
O embaixador não era a primeira pessoa a considerar complexa a família composta por vários irmãos, meios-irmãos, primos e sobrinhos. Complexa e intimidante, reconheceu Mathis.
– Vou interpretar o comentário como um elogio – disse.
O cavalheiro de cabelos grisalhos inclinou-se e apoiou os cotovelos sobre a mesa.
– Foi exactamente essa a minha intenção. Não há um único homem que eu admire ou respeite mais do que Jonathan Hazard. E se algum dia precisar de apoio, prefiro tê-lo ao meu lado.
– Ele esteve ao seu lado – Mathis olhou para o chapéu que segurava entre as mãos. – E ainda está. Mas tenho a certeza de que considera essa antiga dívida paga, especialmente depois daquela situação envolvendo o coleccionador e as antiguidades egípcias.
– O casamento com Samantha Wainwright foi um benefício adicional daquela missão – comentou o homem com um sorriso de satisfação. – Soube que Jonathan está de licença de paternidade.
Mathis retribuiu o sorriso.
– Ele pediu alguns meses de descanso para ficar com Samantha e o bebé.
– Onde está Nick?
– Está a viajar com Melina, em lua-de-mel.
– E Simon?
– Simon nunca fez parte da agência. Além do mais, ele regressou há pouco à Tailândia.
– Com uma esposa, pelo que ouvi dizer.
– Sim, ele casou-se com Sunday Harrington.
– Sunday Harrington? O nome parece familiar…
– Ela foi modelo da Sports Illustrated, e actualmente é uma famosa estilista de moda.
– Então, enquanto os outros aproveitam para descansar e viver a vida, você aproveitou para ficar à frente dos destinos da agência?
– Digamos que aceitei vir a Chicago, por alguns dias, para tomar conta de tudo – esclareceu Mathis, recostando-se na poltrona e passando a palma das mãos pelas calças de ganga. Parecia um verdadeiro cowboy. Vestia um casaco de cabedal castanho, uma camisa branca e umas botas de sola grossa, que brilhavam como espelhos.
– Ouvi dizer que é muito competente.
Mathis encolheu os ombros. Como era sempre precedido pela sua reputação, raramente julgava necessário mencionar as suas credenciais.
O ex-embaixador procurava na expressão do cowboy uma confirmação para as referências obtidas.
– Combatente do Exército.
Mathis fez um movimento afirmativo com a cabeça.
– Guarda fronteiriço.
Ele repetiu o movimento.
– Algumas operações secretas para o governo.
O detective encolheu os ombros. Preferia não confirmar ou negar a afirmação do cavalheiro.
– Depois dedicou-se a investigações privadas e à segurança de alguns membros do estado.
Mais um movimento afirmativo com a cabeça.
– Fez realmente muitas coisas.
– Muitas.
– E sobreviveu.
– Sim, continuo vivo.
– E escapou ileso?
Houve um momento de hesitação. A pergunta era inevitável. Saíra ileso?
Mathis decidiu oferecer a resposta socialmente aceitável. Era a única coisa que podia fazer.
– Ileso.
– Ainda bem.
Estava na altura de tratar de negócios.
– O que é que quer de mim, Embaixador?
– Quero que investigue.
– O hotel ou a sua afilhada?
– Os dois. Soube que também é um bom empresário, além de ex… o que quer que seja. Espero que descubra se Desiree está realmente a ultrapassar os seus próprios limites, e se tem ideia do que está a fazer.
– E que mais?
– Como é que adivinhou que ainda não disse tudo?
– Instinto. Faz parte da minha profissão.
– Entendo. Bem… Houve uma série de… incidentes.
– Incidentes?
– Ocorrências sem explicação.
– Que tipo de ocorrências?
O homem parecia embaraçado.
– Movimentação da mobília.
– Movimentação…?
– Móveis que se moviam sozinhos – fez uma breve pausa. – Barulhos estranhos durante a noite. Visões… como se houvesse um vulto de alguém, ou alguma coisa… mas não havia nada – prosseguiu relutante.
Mathis teve de se esforçar para não desatar a rir.
– Está a dizer que o Hotel Stratford está assombrado?
– Não posso.
– Por que não?
– Porque não acredito em fantasmas.
– Então somos dois, porque também não acredito em assombrações.
– Nesse caso, é o homem certo para esta missão. Será a voz da razão num mundo de loucos.
– Há mais alguma coisa?
– Bem, já agora, há mais um pormenor. Tenho a convicção de que isto tudo é obra de alguém que está dentro do hotel. Portanto, ninguém para além da minha afilhada deve saber o que é que você está a fazer. Caso contrário, receio que jamais cheguemos ao fundo deste mistério. Vai ter de usar um disfarce.
– Quer que eu invente uma personalidade falsa?
– Sim, é mais ou menos isso.
– E tem alguma sugestão a fazer?
Os olhos do embaixador concentravam-se agora no chapéu Stetson, nas botas e nas roupas do detective.
– Pode ser um cowboy.
– E o que é que um cowboy estaria a fazer no Stratford?
– Pensaremos num bom motivo. Tenho a certeza de que, juntos, inventaremos uma excelente história para encobrir a sua verdadeira identidade.
– E quando é que quer que eu comece?
– Hoje.
Mathis olhou pela janela e viu o centro de Chicago. Queria… não, precisava de mais informações sobre o hotel e os seus proprietários, tanto os antigos quanto a actual, antes de se apresentar à dama de Boston.
– Amanhã – propôs ao cliente. – Ainda quero verificar alguns pormenores antes de ir procurar a menina Desiree Stratford.
Quinze minutos mais tarde, depois de discutirem os últimos assuntos e encerrarem a conversa, Mathis despediu-se do embaixador, que o acompanhou até à porta do escritório.
– Boa sorte, Hazard.
As palavras que não foram ditas ficaram a pairar no ar entre os dois. Vai precisar de muita.
O apartamento que ocupava naquele Verão, cortesia da Jonathan e Hazards, ficava no quadragésimo-segundo andar de um arranha-céus de Chicago. Com as suas imensas janelas panorâmicas, oferecia uma visão impressionante do Lago Michigan.
A luz da tarde banhava a superfície plácida do lago. A paisagem à sua frente era azul, pontilhada pelo branco das velas dos barcos.
Por alguma razão, a cena fê-lo pensar na visão que tinha da sua cabana ao entardecer, de onde via as Montanhas Sangue de Cristo tingirem-se de vermelho, numa das paisagens mais transcendentais do Novo México.
Que o Novo México mudava de acordo com a luz era algo que tinha aprendido há muitos anos. Talvez por isso tivesse escolhido aquele local quando começara a comprar terras, antecipando o dia em que se afastaria dos negócios.
Mathis levou a lata de cerveja gelada à boca e bebeu um gole. Era inútil estar a lamentar-se. O passado não podia ser mudado, e o dele era como o de todos os outros seres humanos. Deste modo, como ninguém podia prever o futuro, restava apenas o presente. Por isso concentrava-se sempre no momento actual.
Além do mais, como dissera a George Huxley, durante a reunião daquela tarde, escapara do próprio passado ileso… ou quase.
«Quase é uma palavra perigosa, filho. Não pode ser aplicada aos cascos de um cavalo furioso ou a uma granada de mão». Sábias palavras de Argos Hazard, rancheiro, soldado e homem da lei, às vezes marido e pai.
Talvez o pai tivesse razão, afinal.
Algumas pessoas diziam que Mathis Hazard era um solitário, e daí vinha a sua grande competência no que fazia. Mathis sabia que o passado o tornara diferente de outros homens, acarretando aquela infinita e profunda solidão.
Não tinha considerado estranho comprar um rancho no Novo México, perdido entre as montanhas isoladas e o lago, longe da civilização e dos vizinhos. O mais próximo vivia a cerca de sessenta quilómetros da sua casa. Preferia manter-se afastado da chamada civilização. Já tinha visto e vivido o suficiente para saber que a solidão era mais interessante.
Não podia afirmar que conhecera muitas pessoas, mas aquelas com quem convivera, o mundo em que vivera… A maioria dos seres humanos desconhecia que o mundo pudesse ter pessoas e lugares tão desprezíveis.
Um mundo onde um homem adquiria olhos nas costas para poder sobreviver. Um mundo onde nada era o que parecia ser, onde ninguém era o que fingia ser. Um mundo onde um homem aprendia a confiar apenas nele mesmo, onde a experiência, o instinto e a coragem podiam salvar a própria vida quando a inteligência era impotente para tanto.
Sempre fora um solitário por natureza e tencionava continuar assim. Pelo menos, no Novo México não teria de fingir.
Quanto à companhia feminina… bem, essa era uma outra questão.
Sem se virar, perguntou:
– Sabe alguma coisa sobre as mulheres, Beano?
– Normalmente causam mais problemas do que podemos resolver, patrão.
Beano devia saber. Estivera envolvido com o sexo oposto várias vezes ao longo da vida. Casara-se três vezes e divorciara-se outras tantas, e mantivera romances clandestinos e tórridos entre os vários casamentos. Agora, estava livre e sozinho.
William «Beano» Jones fora contratado para trabalhar no velho Circle H aos nove anos de idade. Passara os seis anos seguintes a servir no restaurante de um comboio para o avô de Mathis, antes de ser promovido a cozinheiro da sua propriedade. Por momentos, durante a sua longa e produtiva estada na casa dos patrões, acompanhara os passos do menino. Agora, Beano tinha cerca de setenta anos, e ainda considerava seu dever cuidar de Mathis.
Mas o menino tornara-se um homem, alguém que também se envolvera com algumas mulheres, embora nunca se tivesse casado.
Julgara-se apaixonado uma vez, há muito tempo atrás. Aos dezanove anos, envolvera-se com uma jovem de dezoito, linda, loura e livre como o vento. Tinha sido um típico romance de Verão, quente, inesperado e intenso. E acabara como uma tempestade tropical.
– O que é que tem a dizer sobre uma menina de Boston? – perguntou.
– São as piores, patrão.
– Por quê?
– Uma mulher desse tipo pode fazer um homem sentir-se perdido, atordoado, confuso… Mulheres! – exclamou Beano com desdém. – Vivemos melhor sem elas. Onde esteve esta tarde?
– Com um cliente.
– Ah, sim?
– George Huxley.
– O diplomata?
– Exactamente. Ele quer que eu investigue a sua afilhada.
– A menina de Boston? – deduziu Beano.
– Isso mesmo.
– Sinto que essa história vai dar para o torto.
Mathis também tinha esse pressentimento.
– Tenho de aceitar o caso em nome da agência. A Jonathan e Hazard tem uma reputação no mercado e, actualmente, estou à frente dos negócios. Não há outra alternativa.
– Suponho que não.
Mathis levantou-se para chegar mais perto da janela. Aquela nuvem sobre o lago, seria neblina ou vapor?
– Ela é linda.
– São sempre. Se precisar de ajuda…
Era exactamente o que ele esperava ouvir.
– Na verdade, preciso.
– O que posso fazer, patrão?
– Amanhã cedo, quero que faça a barba e vista as suas melhores roupas.
Beano olhou para as velhas calças de ganga desbotadas, a camisa confortável de algodão e as botas macias.
– Suponho que deva calçar as minhas melhores botas, também.
– E o melhor chapéu.
– O Stetson branco?
– Exactamente.
– Vai usar branco também?
Mathis assentiu.
Beano ergueu uma sobrancelha.
– Tudo isso para impressionar uma mulher?
– Sim, mas não como está a imaginar. Quero que ela saiba de imediato que somos os bons da fita.
– Não seria mais fácil dizer à menina…?
– Stratford. Desiree Stratford.
– Que tal dizermos à menina Stratford que estamos do lado do bem?
– Ela pode duvidar da nossa palavra?
O cozinheiro fez uma careta.
– Sei que já disse isso antes, mas vou repetir. Sinto que isto vai dar para o torto.
– É verdade, já disse isso antes, Beano.
– Onde é que vamos?
Onde é que iam? Como é que poderia explicar a situação a Beano sem lhe revelar aspectos confidenciais do caso? Como é que poderia explicar-lhe o absurdo da situação?
Mathis levou a lata aos lábios e acabou de beber a cerveja. Não acreditava que estivesse novamente envolvido num negócio esquisito, sem pés nem cabeça…