
Editado por Harlequin Ibérica.
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28001 Madrid
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© 2016 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Uma Cinderela para o milionário, n.º 1208 - Fevereiro 2016
Título original: Hired: Cinderella Chef
Publicado originalmente por Mills & Boon®, Ltd., Londres.
Publicado em português em 2010
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial. Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited. Todos os direitos estão reservados.
I.S.B.N.: 978-84-687-7749-8
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Página de título
Créditos
Sumário
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Epílogo
Se gostou deste livro...
– O senhor Judson diz que os seus convidados querem conhecer a chefe de cozinha.
– Desculpa? – Darcy Parrish engoliu em seco quando a jovem empregada lhe deu a mensagem.
– Os convidados do senhor Judson querem conhecer-te.
Palavras tão simples, um pedido tão simples. Então, porque lhe tremiam as mãos?
– Isso é impossível. Diz-lhe que não.
Olivia olhou para ela, atónita. Para dizer a verdade, ela própria estava surpreendida com tal ousadia. Só estava há uma semana em casa de Patrick Judson. Contratara-a a sua governanta, enquanto ele estava fora da cidade, de modo que ainda não conhecia o seu patrão. Mas sabia muito sobre ele.
Mais do que isso, sabia que ele não sabia nada dela. Pelo menos, não os detalhes importantes.
– Lamento, não posso fazê-lo – disse Olivia. – Ao contrário de ti, eu preciso deste emprego. Não recebo nenhum subsídio e...
Darcy olhou para ela, magoada. Não era justo ferir outra pessoa só por receio de se ser despedido.
– Desculpa, não devia ter dito isto.
– Não te preocupes, não faz mal. Mas não posso ir lá. Tu não sabes o que é olharem para ti como se fosses um animal estranho... Não posso, a sério.
Olivia suspirou.
– Mas o que vou dizer ao senhor Judson?
– Diz-lhe... que estou coberta de farinha.
– Mas não é verdade.
Darcy revirou os olhos. Olivia era tão jovem, tão sincera... Não tinha aprendido a usar pequenas mentiras para se proteger dos golpes da vida. Mas que Patrick Judson a exibisse diante dos seus convidados seria insuportável. Ela não queria compaixão.
– Então, diz-lhe que estou a fazer as sobremesas.
– Darcy...
– Olivia, por favor. Não posso ir lá.
– Algum problema? – a voz masculina rouca ecoou por toda a cozinha e Darcy virou-se na sua cadeira de rodas para olhar para Patrick Judson, o seu novo patrão, o homem que financiara o lar onde vivia.
Parecia-se muito com as fotografias que vira dele nos jornais. Com aqueles ombros tão largos, o cabelo escuro um pouco comprido, os olhos verdes e o queixo duro parecia saído de um romance. Certamente, era o tipo de homem pelo qual as mulheres perdiam a cabeça, inclusive as mais bonitas, mais ricas e sem nenhum problema físico. Parecia Heathcliff, o protagonista de O monte dos vendavais, com um smoking do século XXI. E era tão alto...
Darcy era mais baixa do que o normal e os homens altos e formidáveis sempre a tinham feito sentir-se pequena, inclusive quando podia andar. Agora, numa cadeira de rodas, sentia-se minúscula e em desvantagem. Contudo fora uma lutadora a sua vida toda e não costumava mostrar os seus medos.
– Senhor Judson, agradeço a oferta de conhecer os seus convidados, mas receio que não seja possível. Tenho de acabar as sobremesas.
Patrick Judson olhou à sua volta e Darcy desejou poder tapar a mousse de chocolate que, evidentemente, já estava pronta e colocada em tigelas de vidro. Felizmente, ele não disse uma palavra a esse respeito.
– Porque não serves o café, Olivia?
A jovem pegou na bandeja do café e saiu da cozinha, sem dizer nada.
Patrick virou então o olhar para Darcy.
– Há quanto tempo estás aqui? Não recordo ter-te visto.
Já não conseguiria ser invisível, como pretendia. Gostaria de poder levantar-se e ser mais alta do que ele.
Como se tivesse lido os seus pensamentos, ele sentou-se num banco.
– Estou aqui há uma semana. O meu nome é Darcy Parrish.
– E és de Able House.
Ela arqueou um sobrolho, irónica.
– Como adivinhou?
Era uma pergunta tola, claro. A luxuosa vizinhança lutara para que não se construísse o lar para pessoas com lesões na espinha dorsal. Todos, salvo Patrick Judson, que não só doara o terreno, como também financiara a construção, dotando-a de todos os avanços técnicos. E Darcy estava agradecida, mais do que agradecida pela oportunidade de viver num sítio onde podia sentir-se menos dependente. Contudo também sabia que ser residente de Able House, ser um exemplo da generosidade de Patrick Judson, a transformava numa pessoa digna de compaixão.
Durante um segundo, Patrick pareceu ter ficado sem palavras.
– Como adivinhei? Está escrito na tua cadeira – sorriu, depois.
– Ah, sim? Eu não vejo.
– Está numa das rodas.
Darcy inclinou a cabeça e olhou para as letras na borracha preta. Nem ela se apercebera. Quando levantou o olhar, os extraordinários olhos verdes de Patrick Judson cravaram-se nos seus, de um castanho comum, e Darcy sentiu-se envolta num redemoinho de sensações. Sentia-se impotente e odiava sentir-se impotente. Já se vira demasiadas vezes na sua vida em situações que não podia controlar ou à mercê dos que eram mais poderosos do que ela. E, desde o acidente, tinha de lidar com o olhar de piedade dos outros. Ela era uma pessoa orgulhosa e sabia como proteger-se, porém precisava daquele emprego.
Desde que o acidente destruíra os seus sonhos de ser agente da polícia, a sua vida era uma espiral descontrolada. Pela segunda vez, tendo sido a primeira a sua infância em que nem sequer queria pensar, tinha de depender dos outros e isso aterrorizava-a. Todavia ali, na cozinha, ela era a rainha. O seu talento para cozinhar fora a sua salvação. Mas e se perdesse o seu lugar por não conseguir manter a boca fechada?
– Lamento decepcionar os seus convidados – disse-lhe, tentando parecer respeitosa.
– Ah, sim? – Patrick Judson arqueou um sobrolho.
Bom, já mentira mais do que o suficiente. Além disso, ela nunca mentia sobre coisas importantes.
– Não, na verdade, não. Não quero conhecê-los, mas espero que não tenham tido uma desilusão.
– Não tiveram, é por isso que querem conhecer-te. Para te dizerem como gostaram do jantar.
– Lamento, mas eu não gosto de me exibir. Não posso fazê-lo.
– Não era essa a minha intenção.
– Não sabia que estava numa cadeira de rodas, pois não?
– Não te conhecia.
– Pois, claro, porque haveria de me conhecer? Só apenas uma empregada – Darcy suspirou, embora soubesse que era mentira.
A senhora Davis, a governanta, sabia que era de Able House e tinha a certeza de que a mulher lhe dera o emprego por isso. Não porque não tivesse talento para a cozinha, mas porque estavam em Chicago. Ali, abundavam os talentos culinários e um homem com o dinheiro e a posição de Patrick Judson poderia contratar o melhor chefe de cozinha. E não deveria tratá-la de maneira especial por viver numa instituição da qual ele era o principal benfeitor.
Mas fizera-o. Ou, pelo menos, a sua governanta tinha-o feito.
Darcy suspirou.
– Estou agradecida por ter este emprego.
Ele não sorriu. Não, a sua expressão era muito séria.
– Se não fosses capaz de fazer o trabalho, a senhora Davis não te teria contratado. Mas devo avisar-te que é temporário.
Sim, sabia-o e tentava não pensar nisso. Esperara que «temporário» significasse... bom, indefinido.
– Mas neste momento?
Patrick olhou para ela e ela soube que era um homem habituado a levar a sua avante.
– Por hoje – insistiu, – desculpar-te-ei perante os meus convidados. Mas só desta vez. Vou de viagem e, quando partir, quero que todos os residentes de Able House tenham um emprego. Foi uma promessa que fiz a mim mesmo, porém não consigo empregar pessoas que se mostrem insubordinadas ou insistam em esconder os seus talentos. Se quisermos que o projecto de Able House se repita noutros sítios, os seus residentes devem estar dispostos a dar o exemplo. Portanto, tu e eu vamos trabalhar nisso, Darcy.
– No quê?
– No teu medo de saíres da cozinha e de conheceres pessoas.
O seu problema não era exactamente medo de conhecer pessoas. Embora não gostasse que olhassem para ela, também não era uma eremita. Obviamente, não queria chamar a atenção sobre si mesma... mas o seu medo ia para além disso.
– Não quero ser o projecto de ninguém.
– É uma pena – Patrick sorriu. – Porque isso acabou de se transformar numa condição para que continues a trabalhar aqui. Agora, és minha.
Darcy tentou ignorar as palpitações repentinas do seu coração, enquanto ele se levantava para sair da cozinha.
– Senhor Judson...
– Farei tudo o que puder para que tenhas um emprego e um meio de subsistência antes de partir, garanto-te.
Sim, claro, como se nunca tivesse ouvido aquelas promessas antes! Mas, afinal, ela era a única pessoa com quem podia contar.
– Não preciso de segurança.
– De que precisas, então?
Darcy não hesitou:
– Neste momento, de acabar as sobremesas.
– A mousse de chocolate? Está boa? – perguntou ele, brincalhão.
– Praticamente orgástica – brincou Darcy.
Bom, era exagerar um pouco. A sua tendência para dizer a primeira coisa que lhe passava pela cabeça estava bem para uma mulher polícia, mas ali poderia metê-la numa confusão. Darcy abriu a boca para retirar o comentário, porém o seu patrão arqueara uma sobrancelha escura.
– Bom, pelo menos, será divertido. De qualquer forma, o jantar estava espectacular. Obrigado.
Ela sorriu sem conseguir evitá-lo. Como o fazia? Certamente, fá-lo-ia com todas as mulheres que se cruzavam no seu caminho.
– De nada, foi um prazer – respondeu, aparentemente tranquila.
No entanto, por dentro, estava a tremer. Patrick Judson era tudo o que ela nunca poderia ter, inclusive antes do acidente. As coisas que sabia sobre ele e as coisas que sabia sobre ela... Não, obviamente, aquele homem não estava ao seu alcance. De modo que devia disfarçar que se sentia atraída por ele. Que bela situação!
Era muito irritante que o seu novo patrão fosse tão atraente. Mas aquilo ia acabar ali e agora.
Claro que o maldito homem pensava transformá-la numa espécie de passatempo, uma causa.
– Tenho de me concentrar nas sobremesas e só nas sobremesas – disse. E, daquela vez, dizia-o a sério.
Não queria que Patrick Judson a transformasse num projecto pessoal. Mas como poderia impedi-lo?
Patrick acordou na manhã seguinte a pensar nos olhos escuros e rebeldes de Darcy Parrish. Havia qualquer coisa magnífica e desafiante nela, embora se tivesse dado conta de que, por trás daquela fachada agreste, tinha medo. Tendo crescido com três irmãs, conhecia bem as mulheres.
Não fazia sentido pensar nela, apesar de lhe ter parecido muito bonita, porém dera por si a perguntar-se como seria o seu cabelo loiro se não usasse aquele rabo-de-cavalo e o que usaria por baixo do avental vermelho. Parecia esbelta, mas...
– Pára! – repreendeu-se. Aquilo era completamente inapropriado. Darcy era sua empregada, pelo menos, naquele momento, e prometera ajudá-la.
Patrick deixou escapar um suspiro. Porque fizera aquilo? Estava prestes a começar uma viagem à volta do mundo. Agora que a sua irmã mais nova iria para a universidade, estava livre para poder dedicar-se aos seus próprios interesses pela primeira vez desde que os seus pais tinham morrido, deixando-o como tutor das suas três irmãs aos dezanove anos.
Aquela viagem era algo que queria fazer há anos. Pensava aproveitar a oportunidade e nada o impediria, nem sequer uns bonitos olhos castanhos. Com vinte e nove anos, continuava solteiro e ainda tinha muitas aventuras para viver. E pensava fazê-lo. Contudo depois casar-se-ia com alguém do seu mundo, alguém com objectivos parecidos com os seus, e teria filhos. Angelise Marsdon seria uma esposa perfeita e ela parecia pensar o mesmo, embora ainda não tivessem falado de casamento. Isso chegaria com o tempo.
Todavia, por enquanto, o negócio familiar de equipamento desportivo oferecia-lhe a oportunidade perfeita para fazer todas as coisas que queria fazer há anos. A ideia de fazer uma viagem para promover a sua empresa, enquanto fazia desportos radicais com objectivos benéficos, parecia-lhe fabulosa. Estava farto de ser responsável por tudo, de deixar os seus desejos de lado. Queria aquela nova vida e queria-a já.
Só tinha de resolver algumas coisas de última hora. Able House era uma delas e, aparentemente, Darcy Parrish era outra.
– És um idiota, Judson – murmurou. – Ela nem sequer quer a tua ajuda.
Mas tê-la-ia, quisesse-a ou não. Aceitara a responsabilidade de Able House, não só como um exemplo para que as suas irmãs entendessem a diversidade da vida, como também como exemplo do dever dos mais ricos para com os mais desafortunados. Os primeiros residentes tinham sido escolhidos entre os que não teriam de depender de ninguém, modelos a seguir que poderiam ajudar outros. E estava claro porque é que Darcy fora incluída. Era uma rapariga com talento, inteligente, forte. Mas também a vira furiosa e assustada.
Sendo o principal patrocinador de Able House e tendo Darcy como empregada, sentia-se responsável por ela.
Quando partisse da cidade, teria de ter a certeza de que Able House e os seus residentes estavam a salvo. Não queria que nenhum dos seus vizinhos pudesse dizer: «Estava claro que não resultaria» ou «Já sabia que seria um problema» ou «Não precisamos de uma casa de acolhimento que desvalorize o preço das nossas propriedades luxuosas». Em jogo, estavam as vidas, as esperanças e os sonhos de muita gente.
Relaxou. Preocupado com mandar Lane para a universidade e com os seus próprios problemas, depois de contratar a equipa de Able House pensara que tudo funcionava bem no novo lar.
Aparentemente, não era totalmente verdade. Darcy Parrish estava disposta a mostrar-se insubordinada com o seu patrão para não ter de enfrentar um grupo de pessoas que só queria felicitá-la pelo seu trabalho. E isso poderia ser problemático no futuro. Porque, embora Darcy tivesse talento e pudesse ter sucesso, isso não aconteceria se não estivesse disposta a criar o seu espaço no competitivo mundo gastronómico de Chicago. Darcy fora contratada pela senhora Davis, a sua governanta, por ser residente de Able House e o seu talento poderia nunca ser reconhecido se insistisse em esconder-se. E isso seria mau, tanto para ela, como para Able House.
No entanto ele não deixaria que isso acontecesse. Ia ajudá-la.
E, além disso, ia beber um café mais do que necessário, pensou, deixando escapar outro suspiro. Precisava de um café para enfrentar aquela mulher com a cabeça desperta.
Tinha a certeza de que o café de Darcy Parrish faria um homem suplicar. Embora, provavelmente, não fosse boa ideia fazê-la saber que tinha o poder de o fazer suplicar, pensou, com um sorriso.
Oh, não, não era assim que iam ser as coisas!
– Que comece o jogo, Darcy! – murmurou, enquanto ia ter com a sua bonita chefe de cozinha.