Editados por HARLEQUIN IBÉRICA, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

 

© 2007 Susan Wiggs. Todos os direitos reservados.

À BEIRA DO LAGO, Nº 46 - Dezembro 2012

Título original: Dockside

Publicada originalmente por Mira Books, Ontario, Canadá

 

Todos os direitos, incluindo os de reprodução total ou parcial, são reservados. Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Enterprises II BV.

Todas as personagens deste livro são fictícias. Qualquer semelhança com alguma pessoa, viva ou morta, é pura coincidência.

™ ® Harlequin, logotipo Harlequin e Romantic Stars são marcas registadas por Harlequin Enterprises II BV.

® e ™ São marcas registadas pela Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença. As marcas que têm ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

 

I.S.B.N.: 978-84-687-1364-9

Editor responsável: Luis Pugni

 

Imagens de capa:

Mulher: BLIZNETSOW/DREAMSTIME.COM

Paisagem: VITELLE/DREAMSTIME.COM

 

Conversão ebook: MT Color & Diseño

www.mtcolor.es

 

 

É um prazer para nós oferecer-vos este livro de Susan Wiggs. Qualquer tipo de mulher, sem importar a idade, pode perder-se nos relatos íntimos e muito atuais de Susan Wiggs que, através de passagens retrospetivas, nos liga ao ontem e ao hoje de uma maneira magistral. Histórias antigas que condicionam o presente. Porque em todo o lado há histórias. Até há histórias dentro das histórias, que descrevem a emoção de fazer parte de uma família ou de como o amor pode dar origem a uma nova vida.

«À Beira do Lago» é uma recreação maravilhosa do amor e da vida. Os amigos e familiares encontram-se mais uma vez no acampamento Kioga, no lago Willow. Nessa ocasião, a razão do encontro é uma das mais felizes situações que podem acontecer: Um casamento. E não é um casamento qualquer. Esta celebração terá um ou dois convidados inesperados, que talvez lhe interessem e que, certamente, lhe roubarão o coração.

Desejamos-lhes uma leitura feliz e esperamos que desfrutem tanto como nós.

Os editores

 

 

Um lago é a face mais bonita do rosto da natureza. É o olho da terra, que reflete a profundidade do nosso próprio ser.

Henry David Thoreau

Walden

Primeira parte

 

Na atualidade

 

Se tem o que é preciso para ser guia turístico, assistente social, especialista em marketing, assistente, cozinheiro, contabilista, relações públicas, jardineiro e historiador, se está disposto a trabalhar arduamente para oferecer o maior conforto e se deseja partilhar com os outros a beleza natural da região, então, está pronto para gerir uma hospedaria ou um hotel rústico.

Associação Hoteleira do Alasca

Um

 

Nina Romano manteve os olhos fechados depois de Shane Gilmore a beijar. Não podia dizer-se que fora o melhor beijo do mundo. Nenhum homem nascia a saber beijar e alguns precisavam de muita prática para aprender. Como Shane Gilmore.

Abriu os olhos e sorriu. Os lábios lindamente esculpidos, o queixo robusto, os ombros largos e o cabelo preto faziam pensar que ele sabia beijar muito bem. Talvez estivesse apenas a ter um dia mau.

– Esperei muito tempo para fazer isto – disse ele. – O teu trabalho à frente do Município pareceu-me eterno.

Seria uma indireta por causa do escândalo em que acabara o mandato de Nina como presidente da câmara de Avalon, no Estado de Nova Iorque?

– Falas como um dos meus inimigos políticos – disse, num tom de troça. Talvez fosse apenas imaginação dela.

– Os meus motivos são mais românticos – replicou ele. – Estava à espera do momento adequado. Não teria sido muito apropriado, se nos vissem juntos quando tu eras presidente da câmara e eu era presidente do único banco da vila.

Presidente ou não, continuava a ser muito bonito e não lhe ficava bem comportar-se como um imbecil. E, quanto ao escândalo, estava a ser excessivamente paranoica. Naquela altura da sua vida, já devia estar habituada aos escândalos, sendo mãe solteira. Apesar dos falatórios, mantivera a cabeça bem erguida e acabara por trabalhar como assistente do presidente da câmara, na vila idílica de Avalon. O salário era quase inexistente e também não melhorou muito quando o presidente da câmara McKittrick ficou doente e ela passou a ocupar o seu lugar, transformando-se na presidente da câmara mais jovem e menos bem paga de todo o Estado. Não só isso, como também encontrara uma vila à beira da bancarrota. A situação económica era tão grave que se vira obrigada a cortar gastos em todo o lado, incluído o seu próprio salário, até encontrar finalmente onde estava o problema: Um administrador corrupto.

Mas já era suficiente. Acabara de iniciar um novo capítulo na sua vida. Regressara à vila depois de passar três semanas fora e aquele era o seu primeiro encontro com Shane. Não era o momento para começar a discutir por tolices. Embora aquele beijo tivesse sido muito fraco e... Baboso, estava tudo bem. Tinham ido fazer um piquenique a Blanchard Park e depois tinham dado um passeio pela margem do lago Willow. Fora lá que Shane parara bruscamente a meio do caminho, olhara furtivamente para a esquerda e para a direita, e depois encostara a boca à dela.

Que nojo...

Nina repreendeu-se pela sua careta involuntária de nojo. Supostamente, era um novo começo para ela. Nunca tivera tempo, nem energia para sair com alguém enquanto se ocupava de cuidar da filha e não ia estragar tudo agora, por excesso de escrúpulos. A sua intransigência já tinha estragado mais encontros do que... Na verdade, tinha estragado todos. Nunca tivera um segundo encontro com ninguém, exceto daquela vez, com quinze anos, em que ficara grávida. Depois daquilo, decidira que os segundos encontros não eram para ela.

Mas agora era tudo diferente. Chegara o momento, com bastante atraso, de descobrir se um encontro podia acabar em algo melhor do que um desastre. A filha, Sonnet, já tinha dezasseis anos e acabara prematuramente o liceu. Tinham-na aceitado na American University e, desse modo, tinha evitado todos os erros juvenis que a mãe tinha cometido.

Não, também não era o momento para pensar em Sonnet. Ainda tentava convencer-se de que era fácil separar-se da filha, que fora o seu mundo até acabar o liceu, há umas semanas.

Acelerou o passo e sentiu uma pontada na perna. Nas suas pressas para voltar para o presente com Shane, aproximara-se demasiado de um arbusto espinhoso.

Deixou escapar um gemido fraco de dor, mas Shane não pareceu aperceber-se e começou a andar junto dela, enquanto lhe falava do seu último jogo de golfe.

Nina cerrou os dentes para tentar conter a dor. Sempre quisera jogar golfe. Era mais uma das muitas coisas que não pudera fazer por falta de tempo e recursos. Mas agora que Sonnet se fora embora, já não tinha desculpa para continuar a adiar os seus sonhos.

Sentiu-se repentinamente mais animada, apesar dos espinhos. Estava uma bonita tarde de domingo e as pessoas saíam para o campo, como animais de sangue quente depois de uma longa hibernação. Nina adorava ver os casais a passear junto da margem, as famílias a fazer piqueniques no parque, os barcos e canoas nas águas cristalinas do lago. A vila natal de Nina era o lugar perfeito para iniciar a fase seguinte da sua vida.

O emprego como presidente da câmara talvez não lhe tivesse dado muitas vantagens económicas, mas dera-lhe mais amigos e aliados do que inimigos, mesmo depois do escândalo financeiro. Aqueles contactos e o banco de Shane seriam a chave para a sua nova empresa. Agora que Sonnet se fora embora, Nina queria ressuscitar um sonho há muito enterrado.

– Portanto, estavas à espera que acabasse no escritório do presidente da câmara – retorquiu a Shane. – É bom sabê-lo. Como estão as coisas no banco?

– Houve algumas mudanças – respondeu ele. – De facto, ia falar-te disso mais tarde.

Nina franziu o sobrolho ao ver como desviava o olhar.

– Que tipo de mudanças?

– Mudanças na equipa, enquanto estavas fora. Podemos não falar de trabalho agora? – tocou-lhe no braço e olhou para ela fixamente. – Senti a tua falta. Três semanas é muito tempo.

– Nem tanto – replicou ela. – Eu tive de esperar anos para começar a minha nova vida. Sonho com isto desde que era pequena.

– Eh... Sim, isso é fantástico – parecia sentir-se incomodado e Nina mudou de assunto.

– Alegro-me por ter feito a viagem com Sonnet. Não me lembro da última vez que tivemos umas férias a sério.

– Pensava que nunca mais voltarias, seduzida pela vida na grande cidade.

Segundo parecia, Shane não a conhecia assim tão bem.

– O meu coração pertence a este lugar, Shane. Sempre foi assim. Cresci nesta vila e tenho aqui a minha família. Nunca poderia ir-me embora de Avalon.

– Portanto, a nostalgia invadiu-te enquanto estavas fora?

– Não, porque sabia que voltaria – um dia depois da festa de fim de ano, Nina e Sonnet tinham viajado de comboio até Washington, e tinham passado três semanas maravilhosas a visitar a capital da nação e os monumentos coloniais da Virgínia.

Também estava a assegurar-se, embora não quisesse admiti-lo, de que Sonnet ficava bem com o pai e a família dele, com quem passaria o verão. Laurence Jeffries era oficial no exército e um agregado militar na Europa. Convidara Sonnet a acompanhá-lo, à sua mulher e às suas duas filhas a Casteau, na Bélgica, onde estava destacado no SHAPE, o quartel supremo da NATO. Era uma oportunidade magnífica para Sonnet, pois poderia servir na Aliança como estagiária e aproveitar, além disso, para conhecer melhor o pai e a sua família perfeita. Laurence era um afro-americano, que se licenciara na academia militar de West Point. A esposa era neta de um famoso defensor dos direitos humanos e as filhas estudavam na Sidwell Friends School. Mas todos queriam que Sonnet se sentisse confortável ou, pelo menos, era o que Nina pensava. No final do verão, Sonnet ia matricular-se na American University. Era algo lógico e natural. Ao fim e ao cabo, todos os filhos acabavam por sair de casa.

Também não era estranho que Sonnet estivesse a viver com o pai, a madrasta e as meias-irmãs. As famílias misturadas eram frequentes nos tempos modernos.

Então, porque a invadia o pânico cada vez que imaginava Sonnet naquela bonita casa de Georgetown ou na cidade belga pitoresca, a dar-se com o pessoal da NATO? Era como se, a cada dia que passava longe dela, a filha estivesse a transformar-se numa desconhecida.

«Basta», voltou a ordenar a si mesma. Deixar que se fosse embora, fora uma boa decisão. Era o que Sonnet queria. E também era o que Nina quisera. Passara muito tempo a desejar aquela liberdade e independência. Despedir-se da filha fora um golpe muito duro, sem dúvida, mas felizmente, tinha algo mais do que uma casa vazia para onde regressar. Tinha uma vida nova pela frente. Nada poderia ocupar o lugar da filha, mas estava decidida a seguir em frente na nova aventura que a aguardava. Renunciara a muitas coisas, quando se tornara mãe numa idade excessivamente precoce. Não, não renunciara. Só as adiara e agora chegava o momento de as fazer.

Shane voltara a falar e Nina apercebeu-se de que não ouvira uma única palavra.

– Lamento muito. O que dizias?

– Estava a dizer que tenho vontade de andar de caiaque. É algo que nunca fiz.

– O lago é um bom lugar para começar. As águas são tranquilas.

– Mesmo que não fossem, estou preparado – insistiu ele. – Trouxe o equipamento necessário.

Chegaram ao cais da vila, onde os casais e famílias desfrutavam do melhor clima do ano. O olhar de Nina deteve-se num casal que estava sentado num banco, perto da água. Entreolhavam-se e davam as mãos enquanto mantinham uma conversa íntima. Eram pessoas normais. Ele tinha cabelo fino, ela tinha uma cintura estreita e era óbvio que estavam apaixonados. Ao vê-los, Nina sentiu uma melancolia repentina. Nunca vivera aquele tipo de amor romântico e esperava vir a senti-lo um dia.

Contudo, ao olhar para Shane, teve de aceitar que não ia realizar essa fantasia romântica naquele dia.

– Depois de remar, podíamos ir para minha casa – disse ele, interpretando mal o olhar de Nina. – Posso fazer o jantar.

– Obrigada, Shane – respondeu ela, esboçando um sorriso, obrigando-se a desfrutar do momento. De certo modo, um encontro era como explorar território desconhecido.

– Nina! – chamou alguém. – Nina Romano!

Era Bo Crutcher, o lançador dos Avalon Hornets, uma equipa que jogava na liga de basebol independente e estava a beber cerveja com os amigos, na zona de piquenique junto do cais.

– Olá, querida – cumprimentou-a, com o seu sotaque do sul.

– Não me chames «querida», Bo – refilou. – Não é proibido beber antes de um jogo?

– Sim, querida... Desde quando és tão inteligente?

– Desde que nasci.

– Parece que conheces toda a gente na vila – comentou Shane.

– Isso era o melhor de ser presidente da câmara... Ter a possibilidade de conhecer tanta gente.

Shane olhou para Bo por cima do ombro.

– Não entendo como não o expulsam da equipa.

– Porque é muito bom – respondeu Nina. Sabia que Bo Crutcher fora expulso de outras equipas por causa da sua agressividade excessiva. A Liga Can-Am era a sua última oportunidade. – Quando somos bons em alguma coisa, as pessoas ignoram os nossos defeitos. Pelo menos, durante algum tempo. Até se fartarem de nós.

As gargalhadas infantis que vinham do lago atraíram a atenção de Nina. Depressa reconheceu Greg Bellamy e o filho, Max, que estavam a pôr uma canoa na água. Todas as mulheres solteiras da vila conheciam Greg Bellamy, que se tinha divorciado recentemente. Era arrebatadoramente bonito, com cabelo loiro, uns dentes brancos e reluzentes, olhos azuis e um metro e oitenta de pura fibra e músculo. Nina estivera secretamente apaixonada por ele durante muito tempo, mas Greg não era para ela... Nem os dois filhos dele. Nina conhecia e apreciava Max e Daisy, mas preferia manter as distâncias. Finalmente, alcançara a sua desejada independência na vida e não estava nos seus planos encarregar-se dos filhos de outra mulher.

Além disso, Greg não estava interessado nela. Quando se mudara para a vila, no inverno passado, rejeitara o seu convite para beber café. Nina voltou a lembrar-se do desaire, quando vira uma mulher a juntar-se a Greg e Max. Usava calças brancas e uma camisola verde. Era muito alta, tinha cabelo loiro e, embora Nina não conseguisse distinguir bem as suas feições ao longe, conseguira ver que era muito bonita. O tipo de mulher de que Greg Bellamy gostava. Exatamente o contrário das americanas baixinhas, de cabelo curto, temperamentais e sem o menor sentido de moda.

Obrigou-se a afastar a atenção de Greg Bellamy e dirigiu-se para o barracão onde guardava o seu caiaque. Conservava-o há anos, porque sempre gostara de navegar pelas águas tranquilas do lago Willow. A Joia de Avalon, como era conhecido nos folhetos turísticos, media mais de quinze quilómetros de comprimento, nele desembocavam as águas do rio Schuyler e estava rodeado pelas elevações das Catskills. A vila de Avalon erguia-se num extremo do lago, ladeada pelo parque municipal que Nina se preocupara em financiar quando estava a cargo dos orçamentos. Ao longo da margem havia algumas residências de verão e um hotel. A propriedade privada era muito escassa na costa, porque o terreno pertencia à reserva natural das montanhas Catskills. As poucas construções que se tinham realizado antes de se criar a área protegida permaneciam como monumentos históricos e cenários de outros tempos. O lago tinha a forma de um dedo esticado, que se dobrava ligeiramente, como se estivesse à procura nas profundidades do bosque. A norte, banhava as instalações do acampamento Kioga, que fora propriedade da família Bellamy durante gerações. Nina não se surpreendia, porque os Bellamy pareciam possuir metade do condado. O acampamento voltara a abrir as suas portas como lugar de verão para as famílias e, no fim dessa estação, acolheria um casamento muito esperado.

Nina sentiu uma pontada de nostalgia, enquanto ela e Shane tiravam o caiaque. Tinha comprado a embarcação há anos, no leilão anual de Rotary. Era perfeita para ela e Sonnet. A lembrança daqueles dias de verão, em que escapava do trabalho para ir remar com a filha, foi tão forte e inesperada que lhe escapou um gemido abafado.

– O que se passa? – perguntou Shane.

– Nada – respondeu. – Estou emocionada por voltar ao lago, apenas isso.

Shane voltou para o carro para ir buscar o seu equipamento e Nina pôs o caiaque na água, enquanto observava a canoa de Greg Bellamy. Ele e Max remavam em sintonia, enquanto a loira estava sentada no meio, como uma princesa nórdica, com as calças amarrotadas e tentando não se despentear. Não parecia estar a divertir-se muito.

Quem seria aquela mulher? O casamento iminente na família Bellamy atraíra muitas visitas para a vila e para o acampamento Kioga, assim como uma legião de organizadores de eventos, floristas, decoradores e fornecedores. A noiva era a sobrinha de Greg, Olivia. Talvez aquela princesa nórdica fosse a acompanhante de Greg no casamento.

Nina procedia de uma família muito numerosa e estivera em muitos casamentos, mas nunca fora a noiva. Talvez agora, que ficara sozinha, acabasse por casar.

Virou-se e olhou para Shane Gilmore, que regressava do estacionamento. «Ou talvez não», pensou. Talvez não se casasse.

O equipamento de Shane consistia num capacete, um colete salva-vidas, uma faixa que lhe rodeava a cintura como um tutu, um rádio e umas sapatilhas aquáticas.

– Ena, que... Completo – disse Nina. Por sorte, o tempo que passara como presidente da câmara ensinara-a a ser diplomática.

– Obrigado – respondeu ele, gabando-se do seu equipamento. – Comprei tudo nos saldos da Sport Haus.

– Não me parece que vás precisar do capacete – observou Nina. – Só se usam em águas revoltas.

Ele ignorou o seu conselho e deslizou no banco enquanto ela segurava o caiaque.

– Pronta? – perguntou, enquanto batia com o capacete no cais.

– Ainda não – respondeu ela e mostrou os remos. – Não iríamos muito longe sem isto.

– Rápido – apressou-a. – Isto parece que vai virar-se de um momento para o outro.

– Calma. Fazia-o com Sonnet, quando tinha cinco anos. Se estiver bom tempo, não há um modo mais seguro de te deslocares na água.

Shane agarrou-se à beira do cais, enquanto Nina entrava no caiaque e se obrigava a não ser muito dura com ele. Era o presidente do banco. Educado e de aparência agradável. E dizia coisas como: «Sabes quanto tempo esperei para te convidar para sair?»

Ensinou-o a introduzir o remo na água e fez uma demonstração das técnicas elementares de remo. O que importava que fosse um néscio, com capacete? Ao fim e ao cabo, era um homem precavido que não dispensava as medidas de segurança. Além disso, era evidente que Shane estava a desfrutar muito daquele encontro. Relaxou assim que se afastaram da margem e deslizaram suavemente pela superfície serena do lago, cativada pela beleza mágica do lugar. Por alguma razão, os lagos do Estado de Nova Iorque eram tão lendários entre os habitantes da cidade. A água estava salpicada de botes, veleiros, caiaques e embarcações de todo o tipo, e nela se refletiam as colinas ondulantes, com as suas nascentes e cascatas. Remar no lago, debaixo de sol, era como afundar-se nas cores vivas de um quadro impressionista.

– Vamos para ali – sugeriu Nina, apontando a direção com o remo. – Quero dar uma vista de olhos ao meu novo projeto... O hotel do lago Willow.

– É muito longe – disse ele, num tom hesitante. – Do outro lado do lago.

– Podemos chegar numa questão de minutos – insistiu ela, tentando não se irritar com as hesitações de Shane. O hotel do lago Willow ia ser a sua nova vida e Shane, como presidente do banco, era um dos poucos que conhecia o projeto. O hotel passara para as mãos do banco, por causa da execução da hipoteca. Graças ao senhor Bailey, o administrador de fundos, Nina conseguira o contrato de gestão do hotel e estava disposta a fiscalizar a abertura do mesmo. Se tudo corresse de acordo com os seus planos, pediria um pequeno empréstimo e compraria o hotel. Era o sonho que tivera durante toda a vida.

Sem se aperceber, aumentou a velocidade e o seu remo chocou com o de Shane.

– Lamento – mentiu.

À medida que se aproximava do velho edifício, com o seu cais comprido a entrar no lago, sentia-se mais animada. Era o único hotel do lago, devido às restrições impostas depois da sua construção e consistia numa série de velhas residências à volta do edifício principal, imponente, que se erguia na costa esmeralda, como se tivesse parado no tempo. A arquitetura italiana era um magnífico exemplo da exuberância da Idade Dourada. Um terraço rodeava o andar superior e havia um caramanchão que se elevava como um bolo nupcial, com a sua torre coroada por uma cúpula ornamentada. Todas as janelas ofereciam uma vista incomparável do lago Willow. Observando-o da água, Nina imaginou o seu aspeto nos velhos tempos, quando os hóspedes apanhavam sol ou jogavam nos jardins e os casais passeavam de mão dada pelos caminhos, à sombra. Nina tinha um lado irremediavelmente romântico e o hotel só servia para o alimentar. O seu edifício favorito era o barracão para os barcos, construído ao estilo clássico dos lagos do norte de Nova Iorque: Embarcações cobertas ao nível da água e quartos no andar superior. Tão luxuoso e extravagante como o edifício principal.

Segundo o acordo a que tinha chegado com o banco, o andar superior do barracão era destinado a ser a sua residência privada e tinha planos para se mudar ao longo da semana. O barracão tinha servido originalmente como sala de jogos para os filhos do proprietário, além de ser a residência da ama. Mas, ultimamente, só fora usado como armazém.

Desde que era menina, imaginara-se ali, a receber os hóspedes no verão ou a beber chocolate quente e a ler junto da lareira da biblioteca, no inverno. Sempre soubera que aspeto teria cada quarto, que música ambiente estaria a tocar na sala de jantar e como cheirariam as madalenas ao pequeno-almoço. Todos os seus planos tinham sido destruídos pela gravidez e pela enorme responsabilidade de educar a filha, sozinha. Não, não tinham sido destruídos. Tinham sido apenas adiados. E agora, apresentava-se a sua nova oportunidade. Estava pronta para algo novo na sua vida. E precisava mais daquilo do que nunca, agora que Sonnet se fora embora.

Para muita gente, talvez não significasse grande coisa ser hoteleira, mas para Nina, era o começo de um sonho há muito adiado. Ao aproximar-se do cais, sentiu uma onda de entusiasmo, semelhante à emoção que supostamente devia sentir no seu encontro com Shane.

– Aqui está... – murmurou. – Morro de impaciência de pôr mãos à obra.

Shane permaneceu em silêncio e Nina virou-se para ele.

– Shane?

– Sim, queria falar sobre isto – disse ele, apontando com a cabeça para o hotel. – Houve algumas mudanças no banco.

Nina franziu o sobrolho.

– Isso não parece ser muito bom.

– Enquanto estavas fora, Bailey reformou-se e foi para a Florida.

– Eu sei – disse ela, relaxando. – Enviei-lhe um cartão.

– Trouxemos uma nova administradora de fundos, da central. Brooke Harlow. Fez algumas mudanças no departamento, seguindo as ordens da direção.

– Mas... Continuará a respeitar o meu contrato, não é? – perguntou Nina, sentindo-se invadida pelo pânico.

– Calma. A tua reputação é impossível de melhorar e ninguém duvida de que és a pessoa adequada para levar a cabo este projeto.

– Então, porque não me parece que sejam boas notícias, Shane?

– Bom, a verdade é que poderiam ser muito boas notícias. Vendemos o hotel e o teu contrato.

Nina voltou a virar-se e olhou para ele com o sobrolho franzido.

– Não tem graça.

– Não estou a brincar. É verdade.

– Não pode ser... – murmurou, mas as náuseas que lhe deram a volta ao estômago, confirmavam que era verdade. – Pensei que o banco me daria a opção de compra do hotel, assim que pudesse pedir um empréstimo.

– Certamente, sabias que o banco se livraria da propriedade se aparecesse um comprador.

– Mas o senhor Bailey disse que...

– Lamento muito, Nina, mas foi o que aconteceu.

Nina estava consciente do risco que corria ao assinar o contrato, mas o senhor Bailey assegurara que era muito improvável que algo parecido acontecesse. Nina conseguiria um empréstimo e poderia comprar o hotel.

Mas o hotel fora vendido. A outra pessoa.

Por instantes, foi incapaz de aceitar a realidade. Parecia impossível que o hotel não fosse para ela. Que o seu plano tivesse desaparecido...

– Então, o hotel pertence agora a outra pessoa – continuou Shane, sem perceber que as suas palavras a trespassavam como facas afiadas. – E não vais acreditar quem é...

Nina Romano sentiu que algo mudava no seu íntimo. Aquele imbecil que não sabia beijar, estava a dizer que lhe tinham arrebatado o seu futuro, a única coisa com que contara para preencher a sua vida, agora que Sonnet não estava. Era demasiado.

– Eh, estás bem? – perguntou ele.

Não era a pergunta mais apropriada para fazer a uma mulher que tinha o sangue a ferver nas veias.

O corpo de Nina agiu como se tivesse vontade própria. Possuída pelos seus demónios mais íntimos, levantou-se no caiaque e precipitou-se para o pescoço de Shane.