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Editado por HARLEQUIN IBÉRICA, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2013 Harlequin Books S.A.

© 2015 Harlequin Ibérica, S.A.

Desejo inadequado, n.º 40 - Abril 2015

Título original: No Stranger to Scandal

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial. Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Harlequin Desejo e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença. As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited. Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-687-6923-3

Editor responsável: Luis Pugni

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Página de título

Créditos

Sumário

Capítulo Um

Capítulo Dois

Capítulo Três

Capítulo Quatro

Capítulo Cinco

Capítulo Seis

Capítulo Sete

Capítulo Oito

Capítulo Nove

Capítulo Dez

Capítulo Onze

Capítulo Doze

Se gostou deste livro…

Capítulo Um

Hayden Black folheou os documentos e as fotografias que estavam em cima da secretária no apartamento de Washington até encontrar aquilo que procurava. Uns lindos olhos castanhos, cabelo loiro e brilhante até aos ombros. Os lábios vermelhos. Lucy Royall, a chave daquela investigação para o Congresso, com a qual iria conseguir arrasar o padrasto dela, Graham Boyle.

Após ter realizado a investigação preliminar a partir de Nova Iorque, Hayden tinha concluído que a herdeira, de vinte e dois anos, era o ponto fraco de Graham Boyle, através do qual poderia descobrir informação acerca de todas as atividades ilícitas dele. A primeira coisa que tinha feito nessa manhã fora pedir uma fotografia da senhora Royall, para estar preparado quando a conhecesse.

Colocou de lado a fotografia e agarrou numa outra em que a jovem estava a fazer a publicidade do canal de notícias de Boyle, o American News Service, em que ela trabalhava como repórter júnior. Apesar do tom de voz profissional e de ter os olhos muito maquilhados, parecia nova demais, inocente demais, para estar envolvida nos negócios sujos do ANS, de onde andavam a escutar ilicitamente as chamadas dos amigos e familiares do presidente. Mas as aparências podiam enganar, principalmente, quando se tratava de princesas mimadas. E ninguém o sabia melhor do que ele.

Graham Boyle tinha adotado Lucy Royall quando ela tinha doze anos, e depois de a menina ter herdado uma enorme fortuna do pai biológico. Não tinha nascido em berço de ouro, mas sim, em berço de ouro coberto de diamantes.

Hayden agarrou na fotografia de outra jornalista loira: Angelica Pierce, uma jornalista experiente do ANS. Havia dez minutos que tinha saído de uma entrevista com ela, por isso tinha a certeza de que tinha o sorriso tão branco e os olhos tão azuis como apareciam na fotografia. Havia qualquer coisa estranha no azul do seu olhar, que parecia mais proveniente de lentes de cores do que natural. Angelica Pierce tinha passado grande parte da vida em frente de uma câmara de televisão, por isso era normal que se tentasse apresentar da melhor forma possível perante os telespectadores.

Tinha-se mostrado disposta a ajudá-lo e tinha comentado que aquele escândalo estava a prejudicar todos os jornalistas. Acima de tudo, tinha aceitado ajudá-lo em relação a Lucy Royall. Segundo constava, mal tinha terminado os estudos, Boyle tinha-a contratado apesar de ter outros candidatos muito melhor qualificados. Segundo Angelica, Lucy passeava pela redação como se fosse uma estrela de cinema, recusava-se a desempenhar tarefas que não lhe agradassem e assumia que tinha certos privilégios.

Hayden olhou novamente para a fotografia de Lucy, que tinha uma camisa de seda vestida e uns brincos simples de diamantes, tudo muito fino e discreto, mas que ostentava a sua riqueza e classe, e não ficou surpreendido pelo facto de ela se julgar com certos direitos.

No entanto, durante a entrevista, Angelica tinha feito uma coisa particularmente interessante. Tinha-lhe mentido ao contar que Lucy a tinha ameaçado. A sua linguagem corporal fora muito subtil, mas Hayden já tinha tido muitas entrevistas ao longo dos anos e estava habituado a ver coisas que outros não viam.

Ainda que Angelica pudesse ter motivos para mentir, talvez estivesse nervosa ao ver subir de escalão uma jovem e bela jornalista que, para cúmulo, pertencia à família do dono do canal. Havia pessoas que mentiam por muito menos todos os dias.

Mas Hayden sabia que havia mais qualquer coisa. Era verdade que ele costumava desconfiar dos jornalistas por achar que estavam demasiado habituados a manipular factos para conseguirem uma boa história, mas toda aquela investigação se baseava em jornalistas, por isso, pelo bem da sua objetividade, deveria tentar esquecer-se disso e avaliar os factos da forma que lhe fossem apresentados.

Procurou novamente por entre as fotografias até encontrar uma de Graham Boyle. Todas as pesquisas que Hayden estava a levar a cabo para a equipa que tinha sido criada para investigar os casos de pirataria e outras atividades ilícitas acabavam sempre por levá-lo até Boyle.

E à sua enteada.

Era possível que Angelica Pierce tivesse mentido ao dizer-lhe que Lucy Royall a tinha ameaçado; poderia tê-lo feito para proteger o seu posto de trabalho, mas Hayden não tinha qualquer dificuldade em acreditar que a senhora Royall era uma princesa mal-educada que andava a brincar aos jornalistas. Conseguir que ela lhe confessasse que o padrasto estava a fazer jogo sujo seria canja. Hayden tinha experiência mais do que suficiente com herdeiras mimadas e sabia muito bem como deveria tratá-las.

Lucy Royall ia cair, e o padrasto cairia logo a seguir.

Lucy segurou o telefone com o ombro e continuou a escrever algumas perguntas para Mitch Davis, o apresentador de um dos programas da noite do ANS. Ele ia entrevistar um senador da Florida dali a quatro horas e queria ter as perguntas prontas ao meio-dia para se poder familiarizar com elas. Por isso, Lucy tinha precisamente mais dez minutos e, a seguir, à uma, tinha de se reunir com Hayden Black, que fazia parte de uma equipa de investigação de combate à pirataria. Por isso, aquela chamada da produtora Marnie Salloway tinha chegado numa altura péssima. Ainda que o seu trabalho fosse sempre assim, tinha demasiadas tarefas e demasiados chefes.

– Marnie, posso ligar-te daqui a quinze minutos?

– Vou estar numa reunião. Preciso de falar contigo agora – replicou a outra mulher.

– Está bem. O que é que queres?

– Preciso da lista dos lugares para onde vamos mandar esta tarde os nossos repórteres para filmar as imagens da reportagem da filha do presidente.

Lucy franziu a testa e continuou a escrever.

– Enviei-ta esta manhã.

– Enviaste-me dez lugares. Não é suficiente. Preciso de vinte antes do meio-dia e meia.

Lucy olhou para o relógio que estava na parede. Eram onze e cinquenta e um. Ficou sem fôlego.

– Está bem.

Desligou e desperdiçou vinte preciosos segundos com a cabeça encostada à secretária. Mal tinha terminado o curso, Graham tinha-lhe oferecido um emprego como jornalista a tempo inteiro, que ela tinha recusado. A seguir, tinha-lhe proposto que trabalhasse como apresentadora aos fins de semana. Só queria ajudá-la. Era o que andava a fazer desde que tinha doze anos, só que ela não queria ocupar um cargo de grande responsabilidade.

Bem, aquilo não era verdade, era evidente que queria chegar longe como jornalista, mas queria conquistá-lo por si própria, ser boa. Ser respeitada pelo seu trabalho. E a única forma de conseguir essa experiência era trabalhando às ordens de grandes jornalistas, para poder aprender com eles.

Mas em dias como aquele questionava semelhante decisão. Não era a única jornalista nova da estação, mas sim a única a quem toda a gente tratava como se fosse uma empregada. E quem pior a tratava era Angelica Pierce, jornalista que, até então, tinha sido a sua heroína. Lucy respirou fundo e continuou a escrever as perguntas da entrevista de Mitch Davis. Pouco tempo depois, já as tinha enviado por correio eletrónico. A seguir, fez o trabalho que Marnie lhe tinha pedido.

Desde o primeiro dia, tinha ficado muito claro que os restantes trabalhadores do canal ANS não gostavam de ter a enteada de Graham por perto. Corriam rumores de que era sua espia. E ela compreendia a rejeição de que era alvo, embora não pudesse deixar que a afetasse. Aquilo que tinha feito até àquele momento fora manter sempre a cabeça inclinada e desempenhar qualquer tarefa pedida por outro funcionário mais experiente do que ela, mesmo que fosse uma coisa ridícula.

Enviou a lista alargada a Marnie, agarrou na mala e saiu a correr pela porta para se dirigir à reunião com Hayden Black. Se apanhasse um táxi e não houvesse muito movimento, chegaria com tempo de sobra. Saiu à rua, comprou um café e um queque, que colocou na mala e bebeu um golo do café antes de apanhar o táxi. Não queria chegar atrasada à reunião. A equipa estava a desperdiçar tempo e recursos ao investigar inutilmente o seu padrasto. Aquela era a sua oportunidade de defender Graham. Ele sempre a tinha apoiado em tudo, por isso, naquele momento, cabia a ela compensá-lo.

O táxi deixou-a no hotel Sterling, onde estava instalado Hayden Black e onde estavam a ser realizadas as entrevistas. Segundo constava, tinham-lhe oferecido um escritório, mas ele tinha preferido trabalhar num território neutro. Uma decisão interessante. Praticamente todos os detetives gostavam da autoridade que lhes proporcionava um escritório oficial. Lucy acabou de beber o café no elevador e olhou para o espelho; o vento tinha-a despenteado. Enquanto as portas se abriam, ajeitou o cabelo com os dedos. A primeira impressão era sempre importante, e Graham dependia dela.

Verificou que não se tinha enganado no número do quarto e bateu à porta com a mão em que tinha o copo de café vazio, enquanto com a outra alisava a saia. Olhou à sua volta à procura de um caixote do lixo, mas voltou a olhar para a frente ao ouvir a porta a abrir-se e começou a esboçar um sorriso com o qual mostrava que não tinha nada a esconder.

O sorriso foi interrompido ao ver um homem alto, vestido com uma camisa branca, gravata carmesim e umas calças escuras muito bem passadas. Hayden Black.

Lucy sentiu o ar carregado. Tinha conhecido muitos homens poderosos no trabalho, na vida, mas nenhum com a presença daquele. Teve de fazer um esforço para respirar.

Ele franziu a testa. Os seus olhos castanhos observaram-na e não pareceu gostar. Lucy sentiu um arrepio. Aquele homem já estava a julgá-la e a entrevista ainda nem tinha começado. Endireitou-se. Na verdade, estava habituada a que as pessoas a julgassem apenas pela sua riqueza, pela sua forma de viver e pela família em que tinha crescido. E aquele homem era apenas mais um. Levantou o queixo e esperou.

Ele pigarreou.

– Senhora Royall. Obrigado por ter vindo.

– É um prazer, senhor Black – respondeu de forma educada, tal como a mãe lhe tinha ensinado a fazer quando queria conseguir alguma coisa.

«Apanham-se mais moscas com mel do que com vinagre, Lucy».

Ele estendeu o braço para convidá-la a entrar.

– Quer tomar alguma coisa antes de começarmos? – perguntou quase com um grunhido.

– Não, obrigada.

Lucy sentou-se e colocou a mala no chão, a seu lado.

Hayden ocupou a poltrona em frente e olhou para ela com um ar condescendente.

– Vou fazer-lhe algumas perguntas simples acerca do canal televisivo ANS e do seu padrasto. Se me responder com a verdade, não teremos qualquer problema.

Lucy sentiu calor. Grande imbecil. Se lhe respondesse com a verdade não teriam qualquer problema? Tinha vinte e dois anos, um curso tirado na Universidade de Georgetown e era a proprietária de um sexto dos grandes armazéns mais importantes do país. Será que aquele tipo achava que o ia deixar tratá-la como uma criança?

Esboçou o seu sorriso mais inocente, agarrou na enorme mala vermelha e colocou-a em cima da secretária à sua frente. A seguir, aliou a voz doce da mãe com a firmeza que tinha herdado de Graham e disse:

– Acho que vou beber um copo de água, se for possível. Trouxe um queque e queria comê-lo. Não se importa, pois não? Não consegui almoçar porque tinha de vir para cá e acho que penso melhor de barriga cheia.

Ele hesitou por um instante e, a seguir, murmurou:

– Claro.

E levantou-se para ir buscar a água.

Ela respirou fundo, satisfeita, tinha conseguido desestabilizá-lo. Quando o viu regressar com o copo de água, estendeu-lhe o copo de papel do café.

– E importa-se de colocar isto no lixo, já que está de pé? Não queria colocar na mala para não sujar e não vi nenhum caixote do lixo no corredor.

Ele agarrou no copo, mas não ficou nada satisfeito.

Lucy esboçou um novo sorriso.

– Obrigada. Não imagina quantas pessoas se recusam a fazer coisas destas simples, mas, bom, acontece que você é detetive.

Agarrou num bocado de queque e colocou-o na boca.

Ele sentou-se novamente e olhou para ela intensamente, com dureza. Segundo parecia, tinha recuperado o equilíbrio.

– Senhora Royall…

Ela engoliu em seco e procurou um bloco na mala.

– Vou tomar nota daquilo que falarmos. Acho que é importante lembrar mais tarde aquilo que é dito nas entrevistas, seja o que for. Ajuda a cingir-se à verdade e assim não teremos qualquer problema.

Comeu outro pedaço de queque e estendeu-lho.

– Quer?

Ele franziu a testa e Lucy pensou se não teria ido longe demais.

– Não – limitou-se a responder.

– Está muito bom – notou ela, colocando o pedaço na boca antes de procurar uma caneta na mala.

– Está preparada? – perguntou Hayden um pouco tenso.

– Só um minuto. Esta é uma conversa muito importante.

Colocou a mala no chão e escreveu no alto da folha: Entrevista com Hayden Black. 2 de abril de 2013.

A seguir, esboçou um sorriso de orelha a orelha.

– Já estou preparada.

Hayden resistiu ao impulso de gemer e, em vez disso, adotou o ar neutro que lhe era tão fácil exibir numa entrevista. Lucy Royall era exatamente como na fotografia e, ao mesmo tempo, completamente diferente. Tinha o cabelo brilhante e loiro, mas despenteado. Os lábios eram iguais aos da fotografia, embora usasse um batom em tons de bronze, carnudos, sensuais. Muito a contragosto, Hayden ficou sem fôlego. Tinha os olhos cor de avelã, mas ao vivo brilhavam com inteligência. Tinha a certeza de que estava a tentar brincar com ele, e estava a ser bem-sucedida. O que Hayden não sabia era se aquilo o irritava ou divertia.

Aquilo a que não achava piada nenhuma era à forma como tinha reagido ao abrir a porta e vê-la. Tinha ficado estupefacto.

Não era uma mulher linda, era impressionante. Tinha uma luz à sua volta, no seu interior. Um brilho tão atraente que tivera de fazer um enorme esforço para não lhe tocar. Porque não havia nenhuma mulher no mundo pela qual fosse menos apropriado sentir-se atraído. Era a filha do homem que andava a investigar. Uma mulher que, se não estivesse enganado, poderia ser cúmplice das atividades ilícitas do padrasto.

Ela arqueou as sobrancelhas, ou por ver o seu ar de desgosto, ou por estar ali sentada, de caneta em punho, à espera que ele começasse a entrevista.

Hayden pigarreou e premiu um botão para dar início à gravação.

– Fale-me da sua relação com Graham Boyle.

Ela não hesitou.

– O Graham é meu padrasto desde os meus doze anos. É um homem doce, com um coração enorme.

Doce? Hayden teve vontade de começar a rir. Boyle era dono de um canal de televisão e era um homem muito temido, tanto pelos seus concorrentes como pelos seus aliados. Para Graham Boyle, os fins justificavam os meios e tudo valia para conseguir uma notícia.

E uma pessoa que tivesse feito parte da sua família ao longo dos últimos dez anos não podia ser alheia à sua crueldade.

– Não é aquilo que parece – comentou num tom moderado.

– Os seus pais veem-no da mesma forma que os seus amigos, senhor Black? Que as suas namoradas? Que os seus empregados? Que os seus chefes? – perguntou ela, respirando fundo e endireitando ainda mais as costas. – O meu padrasto tem um trabalho que implica tomar decisões difíceis, e as pessoas que não estão de acordo com elas podem considerá-lo um homem cruel, mas comigo sempre foi bom e generoso.

– Ainda bem, mas não está a ser acusado de tomar decisões difíceis, senhora Royall. Está a ser acusado de autorizar, ou pelo menos consentir, escutas telefónicas ilegais para obter informações acerca da filha ilegítima do presidente.

Ela ficou imóvel. A única coisa que se mexeu foi o seu peito ao respirar. A seguir, inclinou-se lentamente para a frente.

– Deixe-me que lhe diga como é o Graham. Quando a minha mãe morreu há três anos, ele ficou arrasado. Quase não conseguia andar a seguir ao funeral. Dois amigos da família tiveram de levá-lo. A seguir, apesar de ter muito trabalho e apesar da própria dor, andou a ligar-me, a visitar-me, a oferecer-me presentes. A certificar-se de que eu estava bem.

Voltou a sentar-se direita, mas o corpo continuou tenso.

– É um bom homem – acrescentou.

Para Hayden, aquela defesa apaixonada do seu padrasto pareceu atraente. Ficou sem fôlego ao ver os seus olhos a brilhar. Sentiu o coração a bater descompassadamente, mas ignorou. Era um profissional.

– Al Capone era muito bom para toda a família – comentou.

Ela corou.

– Não gostei nada dessa insinuação.

Ele abanou a caneta que tinha na mão direita e arqueou uma sobrancelha.

– Não queria insinuar nada, só que o facto de uma pessoa ser boa para a família não significa que não possa realizar atividades ilícitas.

Lucy limitou-se a olhar para ele de forma intensa e ele esperou de forma paciente.

Ela inclinou a cabeça e o seu cabelo loiro caiu para a frente. Hayden não conseguiu evitar imaginar-se a enrolar os dedos àquele cabelo e a fazer com que Lucy voltasse a olhar para si para se inclinar depois para ela e sentir a suavidade dos seus lábios, a paixão…

De repente, sentiu que o colarinho da camisa estava a sufocá-lo. Praguejou. O que é que estava a fazer? Não se podia sentir atraído por uma testemunha de uma investigação tão importante.

«Controla-te, Black», murmurou.

Respirou fundo e olhou para ela até ver uma mulher que estava a tentar proteger um criminoso.

– Participou em alguma escuta ilegal do ANS? – perguntou, com maior dureza do que era suposto.

– Não – respondeu ela, entrelaçando os dedos em cima da mesa que tinha à frente.

Hayden continuou.

– Sabe se foi realizada alguma escuta ilegal no ANS?

– Não – respondeu ela com um ar calmo.

– Participou, ou soube de alguma atividade ilícita no ANS?

– Não.

– Trabalhou com os ex-jornalistas do ANS, Brandon Ames e Troy Hall, quando eles fizeram escutas telefónicas para descobrir a história da filha ilegítima do presidente?

– Não.

– Estavam a cumprir ordens do seu padrasto?

– Claro que não.

– Ao início, disseram que as escutas tinham sido levadas a cabo por um detetive que tinha trabalhado para o canal em regime temporário mas, a seguir, descobriu-se que ele estava inocente. Sabe quem é que os poderia ter ajudado no ANS?

– Que eu saiba, ninguém.

– O que é que acha das acusações feitas contra o ANS e contra Graham Boyle?

Ela respirou fundo.

– As pessoas que conseguem alguma coisa na vida atraem sempre outras que as querem arrasar.

– O que é que acha que o ANS fez para conseguir descobrir a notícia da filha do presidente Morrow? Ele foi senador em Montana antes da campanha presidencial, não era a primeira vez que o seu passado era investigado.

Pela primeira vez, Lucy pareceu hesitar.

– Não sei. Não trabalhei nessa notícia.

Ele percebeu que devia insistir, mas ao ver aquela expressão na sua cara, aquilo que desejou foi tranquilizá-la. Agarrar na sua mão e dizer que ia correr tudo bem. No entanto, o seu eu mais cínico disse que era provável que estivesse a representar e que tinha de a fazer falar mais.

– Mas de certeza que tem falado com outros jornalistas – disse, tentando aparentar um ar cético. – Toda a gente fala desta história. Não me está a querer fazer acreditar que não ouviu nada acerca da forma como a notícia foi descoberta, pois não?

– Imagino que graças ao bom jornalismo de investigação de sempre – respondeu ela num tom forçado.

Mas Hayden não achou que estivesse a mentir. Precisamente ao contrário da última mulher que se tinha sentado naquela cadeira. Aquela mulher não se dava bem com os colegas, sentia-se excluída por eles, mas não queria dizê-lo. Hayden não conseguiu evitar sentir alguma ternura.

No entanto, Angelica Pierce tinha deixado claro de quem era a culpa de Lucy Royall não estar integrada. Era perigoso sentir pena dela. Hayden passou uma mão pela cara. Aquela entrevista não estava a correr bem e não estava a levá-lo a lado nenhum. Talvez a falta de sono dos últimos meses estivesse a começar a prejudicá-lo.

Hayden olhou para o relógio. Talvez o melhor fosse terminar logo, ir buscar o filho, que estava com uma ama na porta do lado, e ir dar um passeio a algum dos parques de Washington. Depois, voltaria a entrevistar Lucy Royall quando se sentisse melhor.

– Obrigado pelo seu tempo – disse. – Ligar-lhe-ei quando precisar de voltar a falar consigo.

Ela guardou o bloco e a caneta na mala e levantou-se.

– Senhor Black, compreendo que esteja a fazer o seu trabalho, mas espero que não tenha descartado a hipótese de o Graham Boyle estar inocente.

Ele também se levantou.

– Se as provas demonstrarem que é inocente, senhora Royall, transmitir-lho-ei.

Mas o seu instinto, que nunca o enganava, dizia que o padrasto de Lucy Royall era culpado. E ele só precisava de prová-lo.

Abriu-lhe a porta e, a seguir, viu como balançava as ancas pelo corredor. A sua beleza, força e determinação tinham-no surpreendido.

Mas iria estar preparado da próxima vez que tivesse de falar com ela.