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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

 

© 1999 Janet Ferguson

© 2019 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

O substituto, n.º 471 - fevereiro 2019

Título original: The Locum at Larchwood

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

 

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.

Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Sabrina e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.

As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos estão reservados.

 

I.S.B.N.: 978-84-1307-584-6

 

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

 

Créditos

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Se gostou deste livro…

Capítulo 1

 

 

 

 

 

A clínica ficava num anexo de Larchwood, perto da casa do doutor John Burnett. Situada a alguma distância da estrada, num espaçoso terreno, estava perto do cruzamento que marcava o começo de Melbridge, uma pequena mas crescente povoação perto do Tamisa.

Havia dois médicos na clínica, John Burnett e a sua sobrinha, Kate Burnett. Até há uns dias, quando o doutor John sofreu um acidente, tudo corria bem, sem contratempos nem problemas de nenhum tipo entre eles.

«Devia ter imaginado que não duraria», pensou Kate, enquanto olhava pela janela do seu consultório para o caminho que dava para a clínica.

Estavam no fim de Setembro e eram quase sete horas da tarde de um dia demasiado longo. Kate estava cansada e também preocupada. A partir de segunda- -feira, Guy Shearer, o enteado do seu tio John, iria encarregar-se de o substituir na clínica. Teria sido a última pessoa que ela teria escolhido.

Na sala de tratamento, Sue, a enfermeira, apanhava e limpava tudo o que tinha sido utilizado na última consulta. Era sexta-feira, de maneira que só faltavam dois dias para que o moreno Guy começasse a usar a sua mandona personalidade na clínica, pois era esse tipo de homem.

Depois de acabar a sua tarefa, Sue, entrou no consultório de Kate para se despedir. Era da sua idade, vinte e oito anos, era casada e tinha dois filhos.

– Como é que é o teu meio primo? – perguntou. – Não comentaste nada sobre ele e já que vai cá estar até ao Ano Novo, gostaria de ter uma ideia de como ele é.

– Bom… – Kate tentou ser justa. – Mal o conheço, Sue. Só nos vimos umas três vezes e esteve sempre com a família presente. Mas receio que seja bastante mandão e que goste de fazer as coisas à sua maneira. É um homem grande, atraente, corpulento, com cabelo preto muito espesso.

– As doentes vão ficar encantadas!

Kate forçou um sorriso.

– Certo.

– Onde é que tem estado a trabalhar? Acho que mencionaste qualquer coisa no estrangeiro.

– Em Mtanga, no leste de África. Ajudou a estabelecer uma clínica lá, mas não quis assinar por mais três anos, de maneira que volta para Inglaterra por uma temporada.

– É casado?

– Não.

– Intrigante – os olhos escuros de Sue brilharam. – De qualquer maneira, vemo-nos na segunda-feira – disse e, depois de um risinho, saiu da sala.

O táxi que tinha levado Guy Shearer do aeroporto há muito tempo que se tinha ido embora. Kate tinha-o visto chegar pela janela há algumas horas. Imaginava a excitação que havia em casa. A sua mãe, Sylvia, devia estar encantada diante da perspectiva de o ter em casa durante três meses.

«Imagino», pensou Kate, saindo, «que devia ir lá a casa cumprimentá-lo. Deve ter visto o meu carro e sabe que estou aqui. Seria um pouco grosseiro da minha parte ir-me embora sem dar sinal de vida».

Entrou na casa de banho e olhou-se ansiosamente ao espelho. Porque é que não tinha levado o baton e o resto da maquilhagem para animar um pouco o seu aspecto? O seu reflexo mostrava como é que se sentia: cansada e totalmente vulgar. Apesar de tudo, não se podia queixar do seu cabelo. Dourado como o mel, caía num rabo-de-cavalo mesmo por cima dos seus ombros e uma franja quase roçava as suas sobrancelhas.

Trabalhava em Larchwood há três meses, desde que acabou o seu estágio em Wiltshire e passou o seu exame final. Podia ter ficado ali, mas preferiu não o fazer. Quando o seu ex-namorado, Mike, foi trabalhar para os Estados Unidos e lhe disse que queria terminar a sua relação, sentiu que precisava de uma mudança na vida. Já tinha passado um ano desde que Mike se tinha ido embora, um ano infeliz para Kate, pois no decorrer daquele ano o seu pai morreu com um ataque de coração.

Quando foi o funeral, o doutor Burnett, que estava cheio de trabalho na clínica, propôs-lhe trabalhar com ele.

– Preciso de outro médico na clínica, Kate. O trabalho é muito e isso não é justo para os doentes, nem para Sylvia, nem para mim mesmo – a morte do seu irmão tinha-o afectado muito. Podia ter sido ele mesmo a sofrer aquele ataque, de modo que estava empenhado em persuadi-la. – A não ser que tenhas chegado a algum acordo para ficar em Wiltshire. Senão, porque é que não vens trabalhar comigo?

A sugestão interessou-lhe imediatamente. Já estava na altura de se mexer e esquecer o seu passado com Mike. Estava decidida a superar aquilo. Além disso, a sua mãe também precisava de apoio num momento como aquele, por isso aceitou. As autoridades sanitárias não puseram nenhum obstáculo à sua transferência e Kate regressou a casa.

O acidente do seu tio aconteceu quando conduzia para a nova clínica. Um condutor bêbado bateu no seu carro por trás. John sofreu uma fractura aberta no braço direito e partiu três costelas. Depois de uma noite no hospital, foi enviado para casa com um colarinho e o braço engessado. As costelas ficariam boas com o tempo. Ao princípio tentou continuar com as consultas, mas ao fim de três dias teve que reconhecer a sua derrota.

Estavam à procura de um substituto quando Guy Shearer num dos telefonemas que fez à sua mãe, soube do que se passava. Já que estava quase a voltar para Inglaterra, sugeriu acelerar o processo e dar uma ajuda em Larchwood House.

Muito aliviado, John aceitou imediatamente.

– Que sorte! – disse a Kate, entusiasmado. – Não podia ter pensado em alguém melhor. E Sylvia está feliz. Guy vai viver aqui connosco, claro.

– Claro – anuiu Kate, pensando porque é que estava tão decepcionada com a notícia. Afinal, mal conhecia aquele homem. Só o tinha visto três vezes.

Olhando-se ainda ao espelho, lembrou-se das ocasiões. A primeira tinha sido há cinco anos atrás, quando a mãe de Guy, ex-actriz, se casou com o tio John. Foi um feliz acontecimento, no qual o pai de Kate foi o padrinho.

Toda a gente ficou muito feliz por John, que há dez anos era viúvo. A sua esposa tinha morrido no parto juntamente com o bebé.

Na época do casamento, Kate estava a acabar os seus estudos de medicina em Mamesbury, em Wiltshire. Tinha começado a sair com Michael Merroy e tinha-o levado para conhecer a família, comparando favoravelmente a sua atitude calma e ponderada com a de Guy, muito mais intensa e inquietante. Apesar de tudo, não pôde deixar de sentir o poder da atracção dele, especialmente numa ocasião em que se olharam nos olhos e ele a percorreu de cima a baixo com o seu olhar.

Voltaram a encontrar-se no ano seguinte quando Guy estava a estagiar em Cúmbria foi passar o fim-de-semana à sua casa, coincidindo com Kate, que tinha ido festejar o seu êxito nos exames finais. As famílias reuniram-se para almoçar. Mike mostrou-se interessado quando Guy falou em ir trabalhar para o estrangeiro.

Kate, prestes a começar o seu ano de estágio no hospital, ficou no sétimo céu o fim-de-semana todo. Mike era fisioterapeuta no Hospital Geral de Mamesbury e tinham decidido viver juntos num apartamento ali perto. Era o primeiro amante de Kate e adorava-o. Animada pelo champanhe servido durante o almoço, Kate dedicou a determinada altura um brilhante sorriso a Guy, recebendo em troca outro bastante brincalhão que a fez sentir-se como uma idiota.

Um ano depois, Guy obteve o seu lugar em Mtanga e foi a Surrey uns dias para se despedir da sua mãe e de John. Coincidiu com Kate e Mike, que também estavam ali a passar uns dias. Aquela foi a última vez que Kate viu Guy. Muita coisa tinha acontecido desde então, como era lógico, pois três anos é muito tempo e as mudanças são inevitáveis. A vida seguia o seu caminho, pensou Kate, fazendo uma careta ao espelho.

«O que devo fazer agora é mostrar-me animada e agradável e ir dar as boas-vindas a Guy». Pegou na sua maleta, que tinha sempre consigo, e encaminhou-se com passos decididos para o corredor que dava para a casa do tio. Mal tinha dado uns passos, quando a porta para a qual se dirigia se abriu, dando lugar a uma imponente figura. Guy… quem é que podia ser se não ele? Kate ficou rígida, preparando-se para o receber.

Vestido com umas calças claras, camisa azul e gravata, Guy olhou-a directamente nos olhos.

– Olá, Kate. Há quanto tempo que não nos vemos!

– Muito – Kate riu-se nervosamente, reagindo ao contacto da sua mão, que sentiu fria quando envolveu a dela. Estaria já com saudades do calor de África ou sofreria os efeitos do fuso horário? – Como é que estás? – perguntou, ao mesmo tempo que ele. Kate voltou a rir-se.

– Vim dar uma vista de olhos, mas não te quero entreter se já tens que ir para casa.

Guy disse aquilo como se não quisesse ter companhia… pelo menos, a dela. Se era esse o caso, agradecia-lhe, pensou Kate. Tinha a intenção de lhe mostrar a clínica, como teria feito a qualquer outro médico substituto.

– Não tenho pressa nenhuma, queres ir ver a clínica? – perguntou.

Mas Guy já estava na zona da recepção, olhando por cima do balcão para a sala de espera.

Levou algum tempo, reparando nas filas de cadeiras de plástico, nas placas e cartazes que enfeitavam a parede e nos brinquedos que estavam a um canto.

– Deve ter sido complicado encarregares-te de tudo sozinha – comentou enquanto entravam noutra sala.

– A verdade é que é um alívio que tenhas vindo – Kate tentou mostrar-se generosa, mas obteve pouca resposta do homem que a acompanhava, que se interessou pela equipa da clínica. – Temos duas recepcionistas, uma secretária, uma enfermeira que dá aulas práticas três vezes por semana e partilhamos a equipa de enfermeiras do distrito com outros dois consultórios. Mas suponho que o tio John já te deve ter posto ao corrente disso. A partir de segunda-feira, tu encarregas-te da sala dele e dos seus doentes, claro.

– Claro – respondeu Guy, em voz tão baixa que Kate mal o ouviu. Ele deslizou o olhar pelo consultório, que tinha o mobiliário típico de qualquer consultório médico.

– Ainda não temos computadores – disse Kate, – mas tenho a intenção de pressionar a junta para que nos dê um. Imagino que deves pensar que estamos muito atrasados.

Guy sentou-se na cadeira giratória de John.

– Garanto-te que, depois das condições nas quais tive de trabalhar em África, isto parece-me o máximo da comodidade e da modernidade – apoiou-se contra as costas da cadeira e separou as pernas.

Já que parecia disposto a continuar ali, Kate ocupou a cadeira onde costumavam sentar-se os doentes. Dali pôde ver Guy à luz da janela que tinha ao seu lado, e surpreendeu-se ao ver como estava cansado. Umas profundas linhas corriam até ao seu nariz e a tensão na sua boca era evidente.

– Não devias estar a descansar? – perguntou, preocupada.

– Estás a dizer isso por causa do avião? – perguntou Guy, levantando as sobrancelhas.

– Sim – Kate susteve o olhar, negando-se a baixá-lo.

– Depois descanso – replicou ele, acrescentando: – Lamento a morte do teu pai. A tua mãe e tu devem ter sofrido muito.

– É verdade e obrigada por teres escrito – a carta que Guy escreveu a Kate e à sua mãe foi amável e carinhosa. – A minha mãe está melhor. Mantém-se ocupada com a sua cruzada para salvar animais abandonados. Ainda agora levou para casa um collie que não vê muito bem e um terrier que não pára de morder os calcanhares às pessoas.

– Os terrier adoram calcanhares – quando sorria, Guy parecia diferente. As linhas do seu rosto curvavam-se noutra direcção, dando-lhe uma expressão muito mais afável. – Ficaste aqui por causa da morte do teu pai ou por outros motivos?

O coração de Kate começou a bater mais depressa. «Que não me pergunte por Mike, que não me pergunte por Mike», pediu.

– Quando o tio John me pediu que viesse trabalhar com ele para a clínica não pensei duas vezes – obrigou-se a sorrir, tentando dar a Guy uma falsa impressão de que estava muito satisfeita consigo mesma.

Para evitar que a conversa se alongasse, Kate pôs-se de pé. Já tinha cumprido com o seu dever de anfitriã. O resto podia esperar até segunda-feira. Viu que Guy também se levantava. Pelos vistos, tinha-se esquecido que a cadeira era giratória e pesada e quando se levantou, ela virou-se com violência e bateu-lhe na perna.

Kate surpreendeu-se ao ouvi-lo gemer de dor e viu que voltava a sentar-se. A sua testa encheu-se de suor.

– O que é que tens, Guy? Bateu-te nalgum nervo? Essa cadeira é diabólica – aproximou-se dele, solícita. Era evidente que Guy não estava bem. Devia ter vindo com alguma doença de África: malária, febre amarela, talvez… A última coisa que lhe faltava era outro inválido.

– Não te preocupes, que não vais ter de arranjar um substituto para o substituto – disse Guy, pondo-se novamente de pé, embora com mais cautela desta vez e ignorando a mão que Kate lhe oferecia.

– É por causa da diferença horária? – perguntou ela, afastando-se.

– É um corte na perna.

– Um corte na…?

– Na minha coxa.

– Referes-te a uma ferida?

– Exacto.

– E como é que a fizeste?

– Pus-me no caminho de uma navalha no aeroporto. Um jovem lunático resolveu atacar os passageiros quando estávamos a passar pela fronteira. A polícia conseguiu apanhá-lo, mas primeiro ele feriu vários passageiros, incluindo uma criança. Felizmente, eu resolvi agir. Atenderam-me na enfermaria do aeroporto juntamente com os outros feridos. A criança teve que ir para o hospital. A mãe estava de rastos.

– Deus do céu! – disse Kate, com uma expressão horrorizada.

– Só tiveram que me dar quatro pontos. Depois tive que ir trocar de roupa. Por isso é que me atrasei. Devia ter chegado a Larchwood à hora do almoço.

Kate ainda estava muito emocionada.

– O que é que o tio John e Sylvia disseram? Imagino que devem…

– Não sabem nada sobre isto.

– Mas, Guy…

– Não lhes disse nada e não quero que tu lhes digas – disse Guy, olhando para Kate nos olhos.

– Mas isso é uma loucura!

– Não é uma loucura. É o que é razoável. Se John souber, vai insistir para eu não começar a trabalhar na segunda-feira. A minha mãe vai ficar histérica e tudo se vai complicar. Só tenho um arranhão que vai desaparecer daqui a uns dias, sobretudo se me mantiver afastado de cadeiras com vida própria!

– Acho que devias dizer isso a alguém para além de mim – disse Kate com firmeza. Estava quase a mencionar a possibilidade de uma infecção quando o doutor John entrou no consultório.

– Já lhe deste as ordens, Kate? – perguntou num tom brincalhão, rodeando os ombros da sua sobrinha com o braço são. – É uma sorte ter-te aqui, Guy, não é? Porque é que não jantas connosco, querida? Sylvia mandou-me vir até aqui para dizer que está tudo pronto.

– Adorava – disse Kate, sem ser completamente sincera, – mas de certeza que a minha mãe já está à minha espera com a mesa posta e não quero aborrecê-la.

– Claro que não – disse John. – Pensei que talvez estivesse a libertar algum cão das garras de alguém! – brincou.

Kate riu-se.

– Espero que não – pegou na sua mala. – Já temos que chegue – depois, sem se atrever a olhar para Guy, despediu-se e saiu da clínica em direcção ao seu Volvo vermelho.

A sensação de incredulidade continuava com ela quando arrancou. Parecia mentira que aquilo tivesse acontecido a Guy quando aterrou… Enfrentar valentemente todos os perigos de África para chegar aqui e levar uma navalhada… Mas tinha a sensação de que não lhe tinha contado tudo.

«Devia ter avisado John imediatamente», pensou. Ele e Sylvia deviam saber. Podia telefonar-lhes mais tarde. Por outro lado, e apesar de que não a tinha feito prometer nada, Guy tinha-lhe dito que não queria que contasse o que se tinha passado.

Sem saber o que fazer, discutiu consigo mesma durante todo o caminho até casa.

– Pensava que já não vinhas – disse Laura Burnett no alpendre. – Pensei que estavas entretida com a chegada de Guy – loura e cheiinha, com um vestido verde, pegou em Sparky, o terrier, enquanto Kate metia o carro na garagem.

– Sim, queria dar uma vista de olhos à clínica e não pude vir antes – disse Kate quando saiu da garagem.

– Que aspecto é que tem? Mudou muito?

Kate sabia que a sua mãe sempre tinha gostado de Guy. Também o seu pai.

– Acho que está mais magro, mas, para além disso, continua igual – foi até às escadas. – Vou tomar um banho rápido e já desço.

– Houve um acidente no aeroporto, ouvi nas notícias – disse Laura enquanto a sua filha subia. – Não pude ouvir bem, porque estava na cozinha, mas acho que tiveram que levar algumas pessoas para o hospital. Guy não te disse nada? Embora o aeroporto de North Row seja muito grande.

O telefone salvou Kate de ter de responder e, talvez, de mentir. Ouviu o que a sua mãe dizia:

– Sim, sim, o que é que se passa? – depois veio um escandalizado: – Não! – e depois de uma pausa: – É impossível, Clare, querida. Esta noite não. Sete são mais do que os que eu posso ter e não seria justo para Kate. Precisa de descansar e, sendo tão pequenos, passariam a noite toda a gemer.

Enquanto se despia, Kate imaginou que a sua mãe estava a falar de cachorrinhos. Quando entrou no duche, perguntou-se o que é que diria se a sua mãe voltasse a mencionar o que tinha acontecido no aeroporto relacionando-o com Guy.

Felizmente, Laura não voltou a falar disso durante o jantar, embora tivesse mencionado os sete cachorrinhos que a sua amiga Clare tinha tentado deixar-lhe.

– Vai levá-los para o Milland Animal Sanctuary, pelo menos por esta noite. Pensei que não podíamos tê-los aqui, sobretudo tendo Merle e Sparky.

– Fizeste bem – disse Kate, distraída. Voltava a pensar em Guy. Era possível que dissessem algo sobre o incidente do aeroporto nas notícias. A sorte esteve do seu lado, pois, perto das dez da noite, a sua mãe subiu para ir tomar banho.

E falaram do incidente nas notícias. Mencionaram-no depois de um terrível acidente de comboio na Índia.

– Hoje ao meio-dia – disse o locutor, – no terminal número sete do aeroporto North Row, houve um desagradável incidente. Um jovem branco, armado com uma navalha, agrediu vários passageiros, inclusive uma criança. Evitaram-se males maiores graças à pronta acção de um passageiro que conseguiu segurar o jovem até que a polícia chegou.

Depois passaram uma cena do incidente. Nela via-se um homem, Guy, a lutar com o jovem. Primeiro batia-lhe no braço para o fazer soltar a navalha e depois segurava-o até que os agentes chegassem.

Kate foi incapaz de reprimir um grito afogado.

Inquieta e angustiada, pôs-se de pé. Porque é que Guy não lhe tinha explicado o que tinha acontecido? Porque é que tinha ocultado uma coisa assim? Sem se poder conter, subiu as escadas e entrou no quarto da mãe, que estava a secar o cabelo com uma toalha.

– Acabo de ver o noticiário – disse, sentando-se na cama. – Falaram daquilo do aeroporto.

Alertada pela voz trémula da filha, Laura virou-se para ela.

– O que é que foi? Uma bomba?

– Não, um rapaz com uma navalha – depois, Kate contou à mãe tudo o que se passou, até mesmo o que Guy lhe tinha pedido. – Mas ele não me tinha contado que foi ele quem apanhou o rapaz.

Laura ficou quase tão transtornada como a filha.

– Ora! De qualquer maneira, não vai poder ocultar isso durante muito tempo. John e Sylvia vêem sempre o noticiário das dez.

– Sim, eu sei.

– E Sylvia vai ficar histérica.

– Também sei isso. E a última coisa que Guy quer é que se arranje uma confusão por causa disto.

– Talvez, como acaba de chegar, Sylvia e John não tenham ligado a televisão esta noite – disse Laura, pensativa. – Devem ter muitas coisas de que falar, não achas? Por outro lado, os jornais de amanhã…

– Espero que o tio John saiba disto hoje – interrompeu Kate. – Se algo acontecer à perna dele… É muito provável que a faca estivesse suja e, embora Guy tenha tomado os antibióticos, podem surgir complicações.

– Vá, vá – disse Laura num tom tranquilizador. – Guy já é grandinho e, para além disso, é médico. Sabe o que deve fazer com a sua perna.

– Suponho que tens razão – disse Kate, sem convicção.

– E tu devias dormir um bocadinho – disse a sua mãe com firmeza. – Trabalhaste demais desde que John partiu o braço e nota-se que estás cansada. Imagino que não estão de banco, pois não?

– Não. É a vez de Grainger.

– Bom. Nesse caso, é melhor fazeres o que te disse.

– Está bem. Vou deitar-me mais cedo – Kate sabia que era melhor ceder do que discutir com a sua mãe.

Apesar de tudo, mal pôde relaxar na cama. E quando conseguiu adormecer, sonhou que Guy ficava muito doente, tanto que não podia pedir-lhe ajuda e então aparecia o seu tio apontando-a como culpada e gritando: «Tu és a culpada, Kate!».